quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Como fazer!?

Fernando iniciou o trabalho pedindo aos meninos que retomassem 6 cenas pensando na reestruturação destas a partir de três coisas, o ponto de partida (e agora o que eu faço?), a história de Marinho bem executada, e a crise/diluição dela.

 

A primeira cena apresentada foi a dos pescadores contando O Velho do Mar. Os meninos criaram uma cena que antecedia a contação, usando a cortina como se estivessem envergonhados para contar a história, fizeram referência ao Fábulas falando “era uma vez”, depois tiveram uma ideia e começaram a contar a história usando os cajons e varas, também mudaram o nome da personagem principal para Marinho. Depois de um tempo, os atores da trupe, sem saberem mais o que fazer, pois Marinho (outro ator da trupe) não chegara, colocaram uma TV para as pessoas assistirem, porém ela não funcionou e os atores saíram encabulados. 

 

A segunda cena foi a das meninas que contaram a história do Velho e o Mar. Elas criaram uma cena que antecedia a contação, na qual entravam como atrizes da trupe fazendo uma mágica em que Marinho surgiria, mas a única coisa que saiu do chapéu foi giz. Assim, elas tiveram a idéia de riscar um barco no chão, onde sentaram e tentaram contar a história, e num certo momento contaram ao mesmo tempo, dividindo o olhar do público que assistia.

 

Depois das apresentações, Fernando fez algumas considerações e pediu que as meninas contassem a história com mais lirismo, sem o ar farsesco, pois a trupe sabe contar muito bem as suas histórias. Aos meninos, pediu que tentassem objetivar  as ações, pois muita energia foi perdida. Também pediu que eles definissem melhor o momento em que os atores da trupe se transformam nos pescadores, e trouxessem a qualidade do jogo entre os pescadores que tinha se perdido. Assim, as duplas refizeram as cenas, e foi melhor.

 

Em seguida, fizemos uma roda e falamos sobre as cenas. Até agora a ideia é que a peça O Capitão e a Sereia seja feita pelos Clowns que representarão atores de uma trupe, que sabem contar muito bem histórias mas, devido a falta de um dos atores, ficam constrangidos e não conseguem fazer o espetáculo. A partir disso, vêm as dificuldades de como colocar esse constrangimento em cena, de como encantar o público com o “que não deu certo”, do como arrumar a cena para que o público entenda o que está sendo pensado...

 

Após a conversa, Marco e Camille refizeram a contação dos peixinhos, dessa vez contando a história de Urashima Taro, e Renata e César refizeram a cena do Nascimento do Herói. As duas apresentações foram bem legais, mas a do Nascimento do Herói não mostrou o momento de crise, do impasse em que a história não teria mais como ser contada. Mas depois conversando sobre a cena, os meninos encontraram formas de criar esse impasse, e a outra dupla também levantou uma ideia muito legal de os atores se perguntarem onde Marinho está agora, em Cuba, no Japão... Além disso, com Wanda na roda, não poderíamos deixar de conversar sobre o cenário e figurino. Se falou em fazer uma barcaça em que os atores da trupe contarão as suas histórias, sobre a colocação dos instrumentos, de as baquetas do metalofone parecerem escamas de peixe...

 

E por fim, Fê pediu que os meninos decorassem o texto do Rafa, e pensassem numa contação do Capitão e a Sereia para ser feita na sexta-feira.  

Retratos


Complementando o
post da Paulinha de ontem, seguem algumas imagens comentadas para melhor ilustrar, todas do Maurício Rêgo, vulgo Cuca, nosso fiel escudeiro!

O Marcão fazendo sua performance em cima do prólogo que eu trouxe, com uma "cara boa e brilho no olho"


Os "hômi das letra": Mestre Marciano e Rafa Martins, ambos com cara de conteúdo!

Os corpos (e rostos) falam: uma boa ideia está sem desenvolvimento! E estava mesmo!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Clareando

Pense num barracão movimentado! Quase todo dia nós temos novidades, boas digam-se de passagem, e a de hoje foi a chegada de Márcio e a visita rápida de Maria Thais. Ou seja, um presságio de que hoje o trabalho iria ser aflorado!


Marco primeiro conduziu um aquecimento vocal e depois a trupe “Clowns” mostrou as músicas compostas para Márcio e Wanda, que ainda não conheciam todas, cantaram e tocaram essas três: O Surgimento da Trupe, O Tema do Capitão e Seja Firme Capitão.


Ok! Agora fomos rumo a mesa e sentamos ao redor. Ah! Vale registrar que Ronaldo, Rafa Telles e Cuca estavam presentes também, ou seja, para completar o time faltavam apenas Mona e Helder. Bem, primeiro os meninos colocaram Márcio a par dos últimos acontecimentos, das coisas que permeavam os seus pensamentos, Marco fez uma leitura/cena do prólogo, os meninos leram o texto que Rafa escreveu e foi... foi muita coisa pra minha cabeça, viu?! E olha que Márcio ainda nem tinha começado a falar e os meninos ainda não tinham salpicado de ideias a construção do espetáculo.


Como eu percebi que não daria conta de registrar toda aquela conversa, peguei a câmera e filmei alguns momentos. Mas também fiz algumas anotações que achei relevantes e aqui estão elas, algumas faladas pelos meninos, outras por Márcio, Fê, Rô...


- Ideia: o espetáculo não acontece. Um (des)espetáculo.


- Não perder de vista o pretexto para o fazer, para contar.


- Quem é o interlocutor? Os públicos são diferentes, as pessoas da cidade para a trupe, e as pessoas do SESI para os Clowns.


- Quem é o capitão? Ter uma clareza sobre quem ele é, mesmo que ele passe a ser apenas um pretexto. Cada um pode ter o seu Marinho.


- Deixar o problema para o público, precisa ou não de Marinho?


- Marinho é o ator que não apareceu.


- O texto tem que ter um entendimento simples, o público tem que entender tudo o que foi pensado.


- Deixar a pergunta para o público: quem é o meu Marinho de hoje?


- A utilização do precário tem que ser bem melhor do que uma cena com mais recursos.


Fê fez duas perguntas a Márcio. Como fazer a seleção das cenas? Como proceder na construção da dramaturgia? E Márcio clareou bastante o caminho dessa barcaça. Ele sugeriu que os meninos pensassem no Marinho que cada um contaria, e o que a estrutura teria de sustentável e de falso. Falou também que os atores fizessem um levantamento das cenas que achavam mais relevantes, sugeriu que as linhas narrativas se dessem através do fazer (assim como César havia sugerido no seu roteiro) e que os meninos encontrassem o ponto de crise da narrativa, o impasse, no qual eles não pudessem continuar mais a história.


A conversa foi muito gostosa, muito esclarecedora, e a imaginação dos meninos pegou fogo. Márcio teve que voltar para João Pessoa no mesmo dia, mas voltará depois! Wanda conversou também sobre algumas propostas estéticas que tinha, massa! Fim de relato por hoje.

TEM ALGUÉM AÍ...AÍ...AÍ (eco)

ALGUÉM NOS LÊ AGORA? ..............................................................................................................
NÃO?..........................................................................................................................
.....................................................E AGORA?............................................................................................................................TAMBÉM NÃO?...............................HUM...........................TÁ....................................................................................OPS! SIM?...............................................................................................................QUE BOM! EU SABIA!!! NADEMOS JUNTOS, ENTÃO! MAS NADA DE NADAR, NADANDO ASSIM SEM NADA PRA DIZER, OK? QUE TAL COMENTAREM ALGO?
ME SENTI ESTIMULADO A FAZER ESSE POST DEPOIS DE TER TIDO A FELIZ SURPRESA DE TER VISTO INCRÍVEIS 4 COMENTÁRIOS AO POST "EU E O MAR". VOCÊ CARA (O) LEITORA (tira o A, se precisar) (uma homenagem as mulheres, corajosas e únicas que escreveram algo até aqui), QUE NOS LÊ AGORA, TALVEZ NÃO TENHA A REAL NOÇÃO DA IMPORTÂNCIA DO DIÁLOGO ATRAVÉS DO SEU RETORNO PARA NOSSO PROCESSO, TÃO ABERTO E COMPARTILHADO COM TODOS DESDE O INÍCIO.
VOLTE SEMPRE E ESTEJA CONVIDADO A CRIAR CONOSCO AS ONDAS QUE MEXEM, SEM CAUSAR NÁUSEAS, O NOSSO BARCO.

As primeiras palavras

Ontem (segunda-feira), foi um dia bem especial, pois Rafa Martins trouxe a primeira proposta de texto para o prólogo do espetáculo, incluindo a letra de uma música, onde Marco logo foi para o piano compor a melodia. Um primeiro exercício, um primeiro rabisco, fruto da busca pelo entendimento do que queremos dizer. Vê-lo trabalhando, fazendo cara de feliz ao nos ver colocando na boca suas palavras, seja em texto ou canção, me dá estímulo para fazer das melhores formas o trabalho. Claro que tudo pode ser modificado. Sei que faz parte do processo, hoje ter e amanhã não ter mais, para mais a frente ter todas as palavras.
Ontem também recebemos pela primeira vez a Wanda Sgarbi, responsável pela criação de arte. A impressão que tive é que ela mesmo chegando agora no processo não perde tempo, não espera, age. Enquanto Marco trabalhava a música com a gente, ela já tava lá dentro com a Gabriela vendo o que fizemos, e olhando tecidos, etc. Hoje ela vai ao alecrim, conhecer mercado, centro de artesanato, armarinhos, ver redes, rendas, saber com o que pode contar daqui de Natal. É muito bom saber que posso estar trabalhando aqui em casa e que tem o Rafael Telles, nosso produtor, cuidando das coisas, da Gabriela assessorando Wanda. De sentir o barco andando, cada um no seu posto.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Surgimento da Trupe


Dona Sgarbi, a mulher dos cenários e figurnos...

Mais uma tripulante chegou ao barracão, nossa diretora de arte, Wanda! E chegou com tudo, doida pra trabalhar e cheia de ideias. Eita, negrada, o tempo está passando... Já estamos em agosto!


Bem, começamos o trabalho com a leitura do texto que Rafael fez após não pregar os olhos durante a noite. Ele falou um pouco sobre o que pensou quando fez aquelas duas páginas e nós também conversamos sobre o que pensamos que será a peça “O capitão e a sereia”.  Fernando também trouxe um prólogo que escreveu baseado no prólogo do Henrique V de Shakespeare, que também foi lido, e depois ele comentou da sua ideia do roteiro da peça, a partir deste prólogo. E César também falou de sua ideia para o roteiro da peça.


Tilis brinca com o Cuca, nosso fotógrafo.


Várias perguntas, ideias, questionamentos foram colocados naquela roda de conversa, como por exemplo: como lidar com a cena que não deu certo? Devemos abrir um espaço para uma cena improvisada. Cada ator pode usar um casaco do seu Marinho. Ter em mente a importância do chão, de onde se pisa. Trabalhar com a ideia de que para os atores da trupe não fizeram um espetáculo e pedir desculpas ao público. As contações surgirem através da relação com o ofício. O cenário pode ser um barco ovalado, ter uma estrutura de cortina no teto. Significado de sublime.... e assim foi.


Depois da conversa, os meninos foram jogar bola para aquecer, Marco foi para o piano criar uma melodia para a letra da música que Rafa trouxe, O surgimento da trupe. E Wanda e Gabi conversavam, viam fotos do trabalho, enfim, faziam coisas de meninas cenógrafas.


Quando Marco terminou, ficamos ao redor do piano e escutamos sua melodia cantada. Fernando falou para ele que não era aquilo ainda, pois a música remetia a um musical de hollywood, e pediu que ele tocasse a música na sanfona, assim, aos poucos Marco foi ajustando, os meninos pegaram outros instrumentos, ajustaram a cantoria, e no fim deu bem certo, a música ficou linda!


Experimentando a música composta pelo Marco.


O diretor com cara de "hum, a música ainda não tá legal..."

 


Música ajustada, o ensaio seguiu em frente


Seguindo, os meninos foram tentando decorar o texto, e Rafa dirigiu uma cena como dramaturgo, como ele havia pensado. Atores neutros, público em círculo, instrumentos no chão, toque de sino... Foi interessante ver Rafa conduzindo, principalmente com relação a leitura do texto, pois ele tem uma apropriação diferente do como ler aquelas palavras.

Antes de dormir


(essa foto foi feita por Marco, que acordou sem acreditar no que estava vendo. Temos então a foto da noite, e a foto da manhã seguinte. E eu no mesmo lugar, sem dormir. Só que nessa foto matinal, eu já tinha novidades para mostrar)

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Segunda-feira. Quase dez da manhã. Apenas agora vou dormir. Mas vou dormir empolgado. Surgiram ideias, coisas legais para mostrar. Assisti a horas e horas de fita. Neste final de semana, também assisti aos filmes “Estômago”, “Transamérica” e “Narradores de Javé”. Revi um trecho de “Hoje é dia de Maria” que Marco me mostrou. Levarei hoje duas páginas de texto (não sei se vão gostar, mas servirão ao menos como exercício). Há também uma letra nova, bem diferente da primeira, diga-se de passagem. Qualquer coisa, se não estiver a gosto, vocês me dão uns murros, mais tarde.

Estou amando a companhia de Marco e Rê. Eles me deixam muito à vontade no apartamento, mostram filmes, dividem pensamentos e empolgações, são afetuosos, etc.

Juro que não falarei isso para fazer média, mas vou dormir com vontade de acordar e continuar. Vou dormir achando que não deu tempo de fazer tudo. Na madrugada, li também sobre as categorias estéticas (especialmente o sublime), sobre arte e indústria cultural, dentre outras coisas que não vou conseguir lembrar agora.

Não quero simplesmente adaptar o texto do André. Também não quero apenas passar para o papel os exercícios. Baseado no livro e em tantas outras coisas que estamos vivenciando, quero criar uma outra obra. Forte, viva, provocadora. Algo que faça jus ao trabalho duro do Clowns. Ao trabalho de todos. Quero fazer sentido neste processo. Somar. Espero conseguir.

Um beijo a todos!
Boa noite............................................. câmbio............................... desligo................................................................................................

DRAMATURGANDO


O que era sala (da casa da Barbie) virou escritório de dramaturgo. Ou melhor, dramaturgoS. Chego em casa depois de ter visto a bela apresentação da Margarida (Adelvane) e me deparo com essa feliz imagem. Imagem de trabalho. Bom demais.
Ao chão, munido de livro, celular, computador, câmera de vídeo e algumas dezenas de horas de fitas do processo até aqui, representando o Ceará, Rafael Martins. Na tv, mostrando-se imortalizado pelo registro dos momentos vividos no início dos trabalhos, representando a Paraíba, Márcio Marciano.
Visitas ilustres por aqui, não? Pois é. e ainda são 00:45h.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Continua...

Tivemos um dia mais curto no barracão porque alguns dos meninos precisaram sair mais cedo. Então, Fê pediu que eles refizessem dois workshops, uma cena cantada a partir da música “Seja Firme, Capitão” e outra que tinha a contação dos pescadores.


Eles ensaiaram a música algumas vezes e apresentaram dificuldades em lembrar a letra e acertar o tom da música. Terminado esse ensaio, Fernando mudou de ideia, abandonou o plano inicial de fazer a cena dos pesacadores, e comandou o restante do trabalho pedindo que os meninos andassem pelo espaço e acessassem a pulsação. Os meninos foram explorando algumas corporeidades já criadas em outros momentos e, em seguida, Fê pediu que eles dançassem para o público e explorassem isolar a pulsação do baião em algumas partes do corpo, usando essa possibilidade caso achassem algo interessante.


A partir disso, cada um dos atores buscou uma figura festiva da trupe de Marinho, explorando formas de representação desses personagens. Aos poucos, eles foram narrando algumas frases soltas e escolheram o instrumento preferido das figuras representadas trazendo isso para o corpo e voz; depois, buscaram a relação entre si, contando frases aleatórias uns para os outros. Por último, Fê colocou alguns instrumentos no chão para que os meninos pegassem, e então eles convidaram as pessoas para sentarem no círculo e assistirem ao espetáculo “mais fantástico do mundo”.


Depois do ensaio fizemos a roda de conversa, como sempre! Eu fiz algumas anotações de coisas que achei interessante no treino de hoje e vou colocar aqui para que fiquem registradas. Também escutei uma sonoridade que gostei no exercício, os meninos usavam o rói-rói, o triângulo, chocalhos e pratos.


César: primeiro apresentou um andar meio atrapalhado, sem fixação no chão, depois fez um andar mais contido que me remeteu a um velho, e por último usou um andar com tensões isoladas no corpo criando uma figura interessante e com outro registro corporal. Durante a narração, apresentou o atirador de facas, que se treme o tempo todo.


Renata: aparentou uma passista de escola de samba, às vezes marchando, chamando ou mostrando coisas as pessoas, e sempre tentando animar o público.


Marco: menino serelepe, agitadinho, conquistador, bicha fofoqueira, tímido, uma mistura disso tudo. Apresentou a repetição de trejeitos na personagem.


Camille: puxando de uma perna e enrolando algo nas mãos, isso me remeteu a um lenço que ela poderia estar enrolando e brincando com o andamento da narrativa.  Trouxe também uma idéia interessante de uma cigana.


Durante a conversa, falamos sobre a criação das figuras que surgiram, e que a construção corporal tem acontecido através de junções de vários exercícios que do decorrer do processo, algumas vezes conscientemente e outras vezes não. Exemplo disso foi a junção que Marco fez do menino serelepe (do encontro com Adê), da partitura corporal do exercício com Helder, da bicha fofoqueira, (essa eu não sei de onde surgiu) e do bicho conquistador que vi quando ele queria se aproximar de alguém para contar a história meio que chamando as pessoas com as mãos (também do encontro com Adê).


E durante esse fim de semana não teremos trabalho na sede e nem Barracantes, por causa do espetáculo da Adê, A-MA-LA, amanhã e domingo, na Casa da Ribeira, que estamos produzindo em parceria com o Carmin e o Ronaldo, mas segunda-feira continua...

Eu e o Mar

A cidade ainda dormia quando o despertador tocou às sete da madrugada. Ok. Pelo menos Renata, Rafael (que chegou ontem pra trabalhar conosco e está aqui em casa) e Fernando, isso eu posso garantir. Não tive dificuldades em desgrudar da cama. Isso já é um bom começo. Porque tão cedo? Tinha um encontro marcado. Só eu e o Mar. Resolvi atender o conselho, pra não dizer ordem, da bruxa boa e linda, a querida amiga e mestra Adelvane. A mesma que me apresentou, além do mundo do nariz vermelho, o verde da salada, há quase nove anos atrás. É...o tempo passa. Parece que só não para ela, que está cada vez mais jovem e radiante. Bom, isso tudo porque fiquei devendo a ela (e principalmente a mim mesmo) uma imagem da minha pessoa, essa que vos escreve, alguns quilos a menos. Tem sido difícil. Mas sou brasileiro e não desisto nunca (leia "teimoso").
Rumei até Ponta Negra. O lado bom de ainda ser cedo é que encontra-se mais facilmente um lugar pra estacionar o carro. Parei em frente ao Fellini. Uma parada inspiradora, apesar de uma experiência ruim com o dono desse estabelecimento no passado. Deixemos pra lá. Salve, salve o mestre Fellini!! Ele não tem culpa nisso. Oito horas em ponto quando pisei na areia. E lá estava ele, grandioso, imponente e simplesmente calmo. Desde que começamos esse processo, que eu me lembre, essa foi a primeira vez que visito o Mar, assim tão de perto. Que pecado...Mas, lá estava eu. A praia aos poucos começava a sua rotina mercantilista. Ao longe, bem longe, ouvi um som de pífano tocando Gonzagão e o seu hino nordestino: Asa Branca. Era apenas um desses carrinhos de ambulantes que circulam tranquilamente vendendo seus piratas. Há quem diga que lugar de pirata é na praia...então tá. Nada mais óbvio. Temos discutido dentre tantas coisas nesse momento que afunila-se, fechando ideias, escolhas e caminhos o quanto se espera de um grupo nordestino que tratará de um tema tão recorrentemente nordestinista. Será isso? Asa Branca, com direito a ausência de um bemol na escala, ou melhor, tocado errado, chapéus de couro ou de palha como preferirem, e um sotaquezinho baiano-nordestinês-universal-global-novela-das-oito? O turista que vem pra cá, que estava lá, na praia como eu estava, realmente quer de nós isso, ou nós só damos isso porque eles querem isso? Caminhemos.
É impressionante como a praia é um lugar democrático. Pretos, brancos, amarelos por natureza, ou assim como eu, homens, mulheres, crianças, cachorros, bicicletas, magros, gordos, ou assim como eu (rsrs), todos de alguma maneira expostos ao sol, recebendo a energia desse lugar incrível ou largando ali suas mazelas e pensamentos, assim como eu. E o mar? Ele simplesmente está ali. Ele é. Lembrei-me de Lima, sendo, estando assim. Caminhando no sentido centro e a favor do vento, vi a minha esquerda um bar (ou era uma pousada? já não lembro) chamado Hemingway. Estava bem acompanhado. Entre surfistas, ambulantes e gringos passei por uma criança que oferecia uma porção de areia como "sorvete molhado de chocolate" para sua mãe. Ela, claro que comeu tudo. Pude ver quando passei de volta por ali e nada mais sobrava. O mar com suas ondas tapa os buracos, derruba castelos, lambe a areia e realinha o chão constantemente para novos pés, de cinco ou até mesmo de quatro dedos, assim como eu. Outra coisa que me chamou atenção foi a quantidade de senhoras tatuadas e com piercings no umbigo a prostarem-se ao sol. Lembrei-me de vovó. Minha pura, quase uma folha em branco, vozinha.
Lutando agora contra o vento, fiz o caminho de volta me prolongando um pouco mais, indo em direção aos pés do nosso pelado e "desareiado" cartão-postal, Morro do Careca. Democrática sim e completamente segregada a negra ponta da Ponta Negra. Não sobra uma branca vela das jangadas que descansam sobre a areia. As propagandas tomaram conta de tudo. E de perto, bem perto ouvi ali uma outra música que banha as ondas das rádios da minha cidade Natal. Onde o povo, democraticamente, sem destinção de raça, idade ou zona (norte ou sul), em suas carroças ou Pajeros, unem-se culturalmente fortes cantando a uma só voz: "VOCÊ NÃO VALE NADA MAS EU GOSTO DE VOCÊ..." Taí! Um hino pra Natal! Era hora de voltar. Começava a feira da Babel à beira-mar. Essa praia que eu vi, certamente não foi a mesma que viu Marinho.
Mas eu voltarei. Porque o Mar assiste a tudo tranquilamente.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Jucurutu

Nessa quinta, contamos com a presença do dramaturgo desse processo, Rafinha, que ficará conosco até a próxima semana. Fernando o situou um pouco sobre o que vem acontecendo no barracão e eu também falei sobre o exercício que Marco iria fazer hoje.

Marco retomou o exercício “momentos do capitão”. Ele espalhou instrumentos pela sala e passou instruções sobre o exercício para os meninos, pois como ele também é um jogador/ator, é importante que ele se sinta mais a vontade para experimentar e deixe mais de lado seu papel de condutor.

Os meninos foram percebendo o espaço e os instrumentos. Fê pediu que os atores trouxessem a corporeidade que cada instrumento oferecia e depois que o som do instrumento (mentalmente) sugerisse o movimento do corpo. Daí quando eles acharam um padrão interessante de movimentos, estabeleceram contato visual e dialogaram entre si.

Achei interessante perceber como o estímulo do som do instrumento e do formato do objeto trazem movimentos que às vezes se contrapõem e coincidem. Os meninos revisitaram alguns movimentos corporais, mas também conseguiram trazer movimentos que além de não ser cotidianos, traziam uma mudança no eixo do corpo que eu nem sempre tinha visto neles durante exercícios anteriores.

Depois que os meninos estabeleceram a relação, Fernando disse os 7 momentos do livro, um de cada vez e de modo aleatório, e os meninos narraram a história do Capitão. Eu, Fê, Gabi e Rafa, sentamos nos quatro cantos do tablado para assistir ao improviso.

César tem muita facilidade - ao meu ver - de contar a história com fluidez de palavras, trazendo muitas vezes estímulos bons para a criação da dramaturgia e a criação corporal não apenas dele, mas dos outros também, como a palavra que disse durante o jogo, “autista”, que mesmo não sendo uma boa palavra para a história que se quer contar, trouxe um estímulo muito criativo para os outros atores que estavam em cena.

Camille, durante o encontro da Adê experimentou ser uma “rapariga” que muitas vezes oscilou entre a menina e a mulher demonstrando insegurança, no entanto hoje ela trouxe durante a sua utilização do instrumento rói-rói uma maior ousadia, e eu acho que é por aí mesmo, pois mesmo que ela não se utilize disso na peça, é importante para o ator ampliar o seu repertório. Ela também explorou contar a história se arrastando no chão, e para mim foi bom ver uma outra maneira de usar o espaço, mesmo que isso induza a uma personificação do narrador.

No instante da narração da parte “Encontrando pares”, surgiu uma música bem interessante, com Marco na sanfona e os meninos dizendo expressões como: ali, aqui, olá. Também durante a narração de César, os meninos fizeram uma imagem bonita cenicamente, um de costas para o outro apontando, indicando algo.

Além disso, durante a narração de Marco, surgiram figuras bizarras da trupe “Meninos-Cactos de Jucurutu”: Rê, como uma mulher fruto de pescador e sereia, a mulher que nunca amou, Camille, como as gêmeas siamesas , a menina-cavalo marinho e César, como o homem chocalho.
César, na sua contação sobre a trupe, falou sobre as figuras, sobre elas serem bonitas e por isso serem solitárias... que elas se encontraram e depois que olharam no olho uma das outras, não quiseram se separar mais, pois encontraram a própria alma (Bom, pelo visto acho que ele já andou lendo Paulo Coelho. Rsrsr.... Brincadeirinha, César).

Depois de muito jogo, Fê falou pros meninos que tudo aquilo foi mais um número da trupe, e que eles teriam reunião administrativa. Eles se sentaram, tentaram alguns improvisos, mas não tiveram muito rendimento. Depois, Camille deu a notícia que Marinho foi embora e não viria para a reunião. Os meninos não acreditaram. César ainda brincou com Rê, cantando a música: Fui passear no bosque enquanto Marinho não vem... Em seguida chegou um telegrama de Marinho dizendo: fui embora. A partir daí, os meninos ficaram sem saber o que fazer, calados, sem chão. E Camille “perturbou” para que eles fizessem alguma coisa, pois pouco depois teria espetáculo. Marco chegou a tapar a boca dela para que ficasse calada. Depois disso, sem muita reação por parte dos meninos, o público (eu, Fê, Rafa e Gabi) começou a gritar e bater palma para que o espetáculo comecasse.

Eles pensaram em não apresentar, porque Marinho não estava presente, mas depois decidiram fazer alguma coisa, e apresentaram a história da Tempestade pois, segundo César, Shakespeare sempre funciona. Rsrs...

Na realidade, eles fizeram uma recriação shakespeariana bem livre. A história que eles contaram foi mais ou menos a seguinte: Próspero, que possuía poderes mágicos, tinha uma filha chamada Miranda. Numa viagem de navio, aconteceu uma tempestade e eles ficaram presos em uma ilha. Surge Ariel, e avista um navio próximo a ilha. Ariel consegue enxergar a tripulação de três homens, e ainda as suas idades e escolhas sexuais. Próspero então reconhece que os três homens são seus parentes, e que todos precisam morrer, pois fizeram alguma coisa de ruim com ele... Daí Próspero pergunta a sua filha maquiavélica uma idéia para “fuder com os cara”, mas esta não tem nenhuma, e seu pai reclama de ela ser uma “brochante”, e ela fala que não é o que as pessoas dizem. Assim, Ariel é a salvação! Ele joga uma bomba no navio e este vai se desfazendo, depois não sei como o navio ressurgiu pois eles o puxam com uma corda.... Foi quase isso, não lembro como terminou a história. Nesse meio tempo eles tentaram cantar para animar o público, que dormia e reclamava.

Quando terminou o exercício sentamos no chão e conversamos, pois em geral sempre surgem novidades boas e outras coisas que são necessárias reforçar ou mesmo conversar novamente para que não se percam. Fê falou sobre a importância de jogar a favor do improviso, dos meninos agirem positivamente. Falamos sobre a narração não ter juízo de valor, embora o grupo tenha seu ponto de vista, da relação que o grupo tem com o treinamento pré-expressivo, entre muitas outras coisas.

Hoje também lemos mais um pouco do blog! Ah! Só mais uma coisinha, pois já escrevi demais e sei que vai ser difícil alguém ler até o final.... César alguns dias atrás citou uma frase de Peter Brook durante uma de nossas conversas, eu não lembro bem como ele disse, mas era algo do tipo, o teatro se faz com inteligência, sentimento e corpo. Então façamos!

São muitas emoções...

Apesar do avançar da hora e do cansaço e sono que me dominam, não posso deixar de postar antes de dormir, diante da jornada tão especial que tivemos hoje (na realidade, ontem, quarta). Recebemos a visita da Adelvane, nossa mãe-clown, mestra tão importante na nossa trajetória, que está em Natal ministrando oficinas no Barracão e vai apresentar seu espetáculo A-MA-LA, neste fim-de-semana, e que veio trabalhar um pouco conosco em cima do universo do Capitão.

Pouco sabendo do processo, a não ser a leitura do livro do André que fez logo antes, a Adê trouxe um pouco do que vem trabalhando, e esse encontro serviu, em primeiro lugar, para nos reaproximarmos, depois de tantos anos de contatos tão atravessados e desencontrados.

E foi forte demais! Potente! Costas pro chão! Bola de borracha! Joga fora a energia cansada! Dinamizando, dinamizando! Comandos tão familiares, tão saudosos. Passada a sequência pré-expressiva, ela conduziu um trabalho de improvisação em cima da ideia da trupe. Um tanto direcionada por ela, um tanto naturalmente desenvolvido pelos meninos, a coisa acabou caindo pra uma trupe de figuras bizarras, como um aleijado, um travesti, uma velha com um garfo na mão, em resumo, um freak show. Muito bonito ver a Adê conduzindo o trabalho, interagindo com os meninos, tomando (e dando) cuspida, tapa, puxão de cabelo, enfim, entrou na atmosfera proposta pelos meninos e provocou ao extremo para extrair o que pôde deles.

Além das cenas que os meninos elaboraram em seguida - com um grau de aproveitamento, síntese e manutenção da essência da improvisação impressionantes! - e do excelente papo que tivemos depois, que apontou muitos caminhos coletivos e pessoais a serem seguidos, o que ficou de mais precioso foi ter a Adê de volta no nosso trabalho, figura tão querida e revolucionária na nossa história.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Abigobel é um pastor alemão

Nossa querida Adelvane conduziu o trabalho de hoje no barracão. Para começar o grupo fez a saudação ao sol que é uma sequência de movimentos do ioga. Fizemos também a postura da árvore e um exercício de prender a respiração e soltar. Tudo muito calmo diante do furacão que estava por vir.


Segundo Adelvane, a ioga proporciona concentração, equilíbrio, baixa a ansiedade, entre outras coisas. Eu concordo com ela, ao menos com relação a esse exercício, pois fiz essa sequência durante toda a oficina dela de iniciação ao clown na semana passada, e me sentia alongada, aquecida, concentrada e tranquila para o desenrolar da oficina.


Depois do ioga, os meninos deitaram no chão e iniciaram o treinamento pré-expressivo. Aos poucos a energia foi surgindo e Adê fazendo os comandos de acordo com o jogo entre eles. Ela pegou alguns instrumentos para que fossem um estímulo para a mudança corporal dos meninos. A princípio pareciam todos bichos, animais, ela começou a maltratar todos, puxando cabelo, batendo, Marco foi logo para o chão e ficou soltando uns sons de lamentação, daí todos maltrataram ele, e aos poucos ele foi reagindo, batendo quando conseguia nos outros. Empurraram comida na boca dele para que ele tocasse a sanfona, sujaram todo o chão, se bateram... Marco chegou a cuspir em Adê que também revidou. Cuspiu no chão. Uma nojeira só, mas que deu um novo estímulo para que o jogo crescesse.


Adê pegou alguns figurinos e foi vestindo em cada um, assim foram surgindo algumas figuras bem grotescas que se relacionavam entre si. Ainda no jogo e cada qual com uma exploração corporal diferente, criaram algumas figuras que a Adê ia direcionando. Inclusive a Adê havia pedido que Rê fosse a mãe do garotinho que Marco fazia, mas a Rê, ao que me parece não entendeu e se comportou como uma amiguinha dele, sendo que Marco havia entendido o comando da Adê e se comportou como se Rê fosse a mãe.


Algumas figuras criadas: Marco aleijado e menino serelepe, César velho e travesti, Renata velha do garfo e garotinha, Camille madame e rapariga. Ah! No meio do jogo o garotinho escutou o carrinho de picóle (de verdade) que passava na rua, ele gritou que queria um e a travesti correu levantou o portão e chamou o picoleiro, que mesmo vendo todas aqueles figuras estranhas, fantasiadas, não demonstrou nenhum preconceito, nem estranhamento, vendeu como se as figuras fossem pessoas comuns.


Fim de picolés, os meninos fizeram uma roda e cada um cantou um trecho de uma música, depois a Adê pediu que eles guardassem o trabalho e em seguida Fê falou para os meninos criarem duas cenas a partir do material criado. E enquanto os meninos se preparavam, quem estava de fora foi varrer e passar o pano no tablado que estava um reboliço só.


Bem, na primeira cena os meninos entraram como uma trupe cantando, tocando e cada um deles apresentou um componente enquanto os outros ficavam congelados. Abigobel cospidor de fogo e nojeiras, Velha do garfo lançadora de garfos que havia sofrido abuso quando criança durante as refeições, Teobaldo de codinome Brigite, engolidora de varas, Pirlinpimpim bailarina do circo, equilisbrista que não sabia sua origem. Os meninos refizeram de novo a cena a pedido de Fê, dessa vez com mais energia enquanto estavam congelados e explorando as vozes das personagens.


Na segunda cena, os meninos também entraram como uma trupe, Marco tocando a sanfona, os meninos foram aumentando a farra entre eles, até que o som do mar (tocado por Adê) foi aparecendo e eles ficaram enjoados - chegou ao ponto de a Rê vômitar de verdade em cena - e depois o som foi sumindo e eles voltando a cantar.


Após as duas cenas tivemos uma conversa sobre o trabalho. Comentou-se que hoje os meninos conseguiram trazer para as cenas o que havia sido criado sem perder a energia do exercício; que Camille oscilava entre a menina e a mulher (rapariga), que a construçao da velha do garfo (Rê) não era uma velha estereotipada e isso era bom, que Abigobel era um pastor alemão pois comia apenas uma vez por dia, e por fim, Adê fez alguns pedidos aos meninos, para se cuidarem fisicamente, para não terem dúvidas, para um potencializar o outro, para se jogarem também na busca individual e para manterem os laços de trabalho com ela.

Narrativa

Os meninos retomaram hoje o exercício de ler e esmiuçar duas páginas do livro do Capitão e, em duplas fizeram anotações, observações e criaram títulos para os fichamentos, que depois eles postarão no blog, a pedido de Yama.

As observações foram feitas em cima das páginas 12 e 13. O título que César e Rê criaram foi “Firmando-se na profissão”, e Marco e Tili “Uma cidade se faz com pedras e corações”. Depois de apresentadas as observações pelas duplas, Yama fez um levantamento de algumas questões que para ele o texto de André deixa em aberto, possibilitando que o grupo crie suas significações e imagine fatos que não estão ali descritos a fundo.

Ainda dentro da conversa, Yama solicitou um workshop extra para os meninos e meninas. Elas deverão entrevistar uma figura que está sempre no aeroporto de Natal, que se veste como um tripulante e é tão familiar ao ambiente que às vezes passa despercebido pelas pessoas que transitam. Eles deverão ler um livro do Paulo Coelho. Fê sugeriu o Diário de um Mago e pediu que eles fizessem uma leitura sem um olhar preconceituoso e que a partir disso criassem uma cena defendendo o ponto de vista do autor.

Após a conversa, os meninos partiram para o exercício "das 2 cadeiras", assim denominado por Fernando. A partir da leitura das páginas 12 e 13 as duplas criaram uma cena, procurando dar foco ao texto, à narrativa, buscando uma precisão na narração sem deixar as soluções cênicas sobrepujarem à comunicação.

A primeira cena apresentada foi de Rê e César. Ele caminhava pela rua com uma trouxa na mão, desempregado, e Rê aparecia como mulher-sanduíche anunciando vagas de emprego. O empregador era Marinho, e estava a procura de bons artistas pelo sertão. A segunda cena foi de Tili e Marco. Ele ficou sentado em uma cadeira narrando o texto do livro, enquanto Camille, em silêncio, fazia algumas ações que remetiam ao que estava sendo dito, utilizando chapéus, giz e corpo.

Conversamos sobre as duas cenas, e com relação à primeira, algumas observações foram feitas, tais como os meninos buscarem mais envolvimento entre aqueles dois personagens, a idéia que foi proposta é bem interessante, mas a execução podia ter sido melhor e, a partir disso Fê sugeriu uma possibilidade de dialetização da cena, que seria o uso diferenciado do que era lido (enquanto a placa não estava visível à plateia) e ao que estava realmente escrito: enquanto aquele desempregado miserável lia uma excelente oportunidade de emprego, na verdade o que estava escrito (e o público leria ao final da cena) era uma oportunidade de emprego muito ruim, mas que ainda assim parecia excelente ao indigente. Sobre a segunda, houveram momentos em que a ação de Camille se sobrepunha ao que estava sendo narrado por Marco, e foi sugerido que se criasse uma dinâmica/edição mais precisa para que isso não acontecesse.

Bem, depois da “avaliação” partimos para a leitura do blog, deu tempo de ler um texto de Marco e outro de Rê, e depois comentar um pouco entre nós.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Organizando

O contact improvisation hoje aconteceu na UFRN em uma sala do departamento de artes. Os meninos experimentaram sensações diferentes de movimentações circulares e que perfuram no espaço, para Sávio essas duas formas se complementam.

Em duplas, andaram pelo espaço mantendo o contato de superfície apenas pelas mãos e, aos poucos, foram deixando que todo o corpo se envolvesse. Depois da experimentação, Sávio pediu que eles, ainda em duplas, se deslocassem no espaço, com movimentações circulares, saindo do eixo, tendo em mente uma dança, um “valsar”. Eles começaram sozinhos, dançando, e aos poucos foram encontrando seus pares.

No exercício seguinte, eles desceram ao chão e subiram, mantendo o contato com o corpo do outro, tentando manter o equilíbrio e utilizar a frente e as costas do corpo. Depois ficaram de costas um para o outro, e uma pessoa subia nas costas do outro e buscava virar de frente. No último exercício em duplas eles levantavam um ao outro para que a pessoa ficasse com a lombar em cima do ombro.

Após essas experimentações, o grupo de C.I. foi para o momento de improviso. Eles se espalharam pela sala, e aos poucos duas duplas foram iniciando a jam e depois mais duas com música instrumental ao fundo. No final, como esses meninos adoram uma palhaçada, todos foram para cima da última dupla.

Terminado esse momento, conversamos sobre os exercícios de hoje. Algumas coisas foram ditas que acho interessante citar abaixo:

* Quando o contato superfície inicia bem já vale por toda a improvisação.

* Existem diferentes caminhos para fazer o C.I, e isso proporciona fazeres diferenciados.

* Hoje a utilização da música criou apenas uma atmosfera e não interferiu na improvisação das duplas, pois o maior estímulo era o ritmo do outro.

* A música, os objetos e mesmo a construção narrativa podem ser estímulos.

Terminado o C.I. rumamos para a sede, e Tilis trouxe uma sobremesa deliciosa para comemorar os aniversários do mês. Pablo chegou atrasado, mas foi! Legal ver você, Balu! Marco também foi mostrar aos meninos os seus novos brinquedinhos, e eles batucaram um pouquinho.

Seguindo, os meninos iniciaram uma reunião em que Fernando sugeriu uma programação para o andamento do processo do Capitão. Eles irão reler o blog aos poucos, fazer anotações e fichamentos dos exercícios que foram levantados até agora e preparar uma maratona de apresentações, também irão tentar criar de 2 a 4 roteiros sem a preocupação de acabamento. A partir disso, eles criarão um esboço cênico, para depois tentar amarrar as coisas para o espetáculo.

E por último, com Rafael Teles presente, eles conversaram sobre os andamentos da produção do Capitão entre outras coisas, e cada um foi resolver suas questões: o César, Fê e Renata para o escritório, junto com Arlindo, para ver as coisas de produção de São Paulo, enquanto eu, Marco e Tilis ficamos dando uma geral na sede, organizando o espaço dos instrumentos, arrumando o “buraco negro” (quarto ao lado do escritório que, desde o início do processo, só vem acumulando coisas jogadas uma por cima das outras), e terminamos o trabalho de forma bem produtiva.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Valsas e aniversários

O contact improvisation hoje aconteceu na UFRN em uma sala do departamento de artes. Os meninos experimentaram sensações diferentes de movimentações circulares e que perfuram no espaço, para Sávio essas duas formas se complementam.


Em duplas, andaram pelo espaço mantendo o contato de superfície apenas pelas mãos e, aos poucos, foram deixando que todo o corpo se envolvesse. Depois da experimentação, Sávio pediu que eles, ainda em duplas, se deslocassem no espaço, com movimentações circulares, saindo do eixo, tendo em mente uma dança, um “valsar”. Eles começaram sozinhos, dançando, e aos poucos foram encontrando seus pares.


No exercício seguinte, eles desceram ao chão e subiram, mantendo o contato com o corpo do outro, tentando manter o equilíbrio e utilizar a frente e as costas do corpo. Depois ficaram de costas um para o outro, e uma pessoa subia nas costas do outro e buscava virar de frente. No último exercício em duplas eles levantavam um ao outro para que a pessoa ficasse com a lombar em cima do ombro.


Após essas experimentações, o grupo de C.I. foi para o momento de improviso. Eles se espalharam pela sala, e aos poucos duas duplas foram iniciando a jam e depois mais duas com música instrumental ao fundo. No final, como esses meninos adoram uma palhaçada, todos foram para cima da última dupla.  


Terminado esse momento, conversamos sobre os exercícios de hoje. Algumas coisas foram ditas que acho interessante citar abaixo:


* Quando o contato superfície inicia bem já vale por toda a improvisação.

* Existem diferentes caminhos para fazer o C.I, e isso proporciona fazeres diferenciados.

* Hoje a utilização da música criou apenas uma atmosfera e não interferiu na improvisação das duplas, pois o maior estímulo era o ritmo do outro.

* A música, os objetos e mesmo a construção narrativa podem ser estímulos.


Terminado o C.I. rumamos para a sede, e Tilis trouxe uma sobremesa deliciosa para comemorar os aniversários do mês. Pablo chegou atrasado, mas foi! Legal ver você, Balu! Marco também foi mostrar aos meninos os seus novos brinquedinhos, e eles batucaram um pouquinho.


Seguindo, os meninos iniciaram uma reunião em que Fernando sugeriu uma programação para o andamento do processo do Capitão. Eles irão reler o blog aos poucos, fazer anotações e fichamentos dos exercícios que foram levantados até agora e preparar uma maratona de apresentações, também irão tentar criar de 2 a 4 roteiros sem a preocupação de acabamento. A partir disso, eles criarão um esboço cênico, para depois tentar amarrar as coisas para o espetáculo.


E por último, com Rafael Teles presente, eles conversaram sobre os andamentos da produção do Capitão entre outras coisas, e cada um foi resolver suas questões: o César, Fê e Renata para o escritório, junto com Arlindo, para ver as coisas de produção de São Paulo, enquanto eu, Marco e Tilis ficamos dando uma geral na sede, organizando o espaço dos instrumentos, arrumando o “buraco negro” (quarto ao lado do escritório que, desde o início do processo, só vem acumulando coisas jogadas uma por cima das outras), e terminamos o trabalho de forma bem produtiva.

domingo, 26 de julho de 2009

Em Garanhuns

No Barracantes de ontem tivemos apresentações de números de palhaços, com o grupo Tropa Trupe, Adelvane Néia e o Circo Grock (Nil e Gena), pois Fê e Marco tiveram que ir para o Festival de Inverno de Garanhuns para fazer uma apresentação do Fábulas.

Eu não estive presente ao Barracantes, pois fui com Fê para Garanhuns. A apresentação do Fábulas lá foi legal e teve bastante público. Depois da apresentação encontramos Vivi e Tine (que estavam no festival e assistiram a peça) fomos dar uma volta pela praça.

Vimos uma feira de artesanato, e Marco encontrou um stand do Abílio, luthier de Recife que fez praticamente todos os instrumentos que o grupo tem, e acabou comprando novos brinquedinhos para o grupo. Um gongo, uma queixada, um mineiro e uma caixa pequena, esta última uma paixão à primeira vista.

Na volta para Natal, eu, Marco e Fê (que dirigia o carro) conversamos sobre o processo do Capitão e os próximos passos a serem traçados.

Ah, lá em Garanhuns eu recebi uma reclamação de Marco por não estar com os relatórios em dia, e em minha defesa disse que essa semana que passou foi bem corrida para mim (oficina da Adelvane, contusão no tornozelo, Latão em Natal, etc.). Bom, o fato é que estou mesmo atrasada com os relatórios e vou, no decorrer dessa semana, colocá-los em dia, nas suas respectivas datas.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Latão!!!!


Dia muito especial no Barracão. Mais um dia muito especial no Barracão.

Recebemos a visita da Cia. do Latão, parceiros paulistanos, grande referência para o nosso trabalho, mestres, para fazermos um intercâmbio.

Ontem, após a apresentação do experimento deles no TCP, "Entre o Céu e a Terra", conversei um pouco com o Sérgio, assim como o Marco o fez com o Martin, diretor musical do Latão. Diante das ansiedades dos diretores musicais - em especial do Marco, o que não é nenhuma novidade... Rsrs - e do ponto comum mais do que óbvio entre os dois grupos, que é a música, decidimos partir do trabalho musical, e "ver no que dava".


Após a chegada deles no Barracão, ficamos ainda um tanto sem saber como começar, conversando um pouco aqui, um pouco acolá, até que optamos por começar com um aquecimento vocal mais convencional, conduzido pelo Maurício, e o Marco pegou abatuta a partir daí, pedindo para todos caminharem buscando uma pulsação comum. É impressionante como um exercício tão bobo pode ser tão difícil, quando se trabalha com um monte de gente que nunca trabalhou juntos antes, mesmo sendo, em boa parte, macaco velho no teatro.

Quando todos começaram a se entender melhor na caminhada, o Marco propôs o exercício das palmas que a Caroll trouxe ao grupo, em círculo, em que a palma é passada um a um, e acumulada a cada rodada (desculpem-me os que não conhecem, não vou tentar explicar aqui, porque é meio complicado de descrever com palavras). Ele trouxe variações, como a inserção do silêncio ao invés da palma conjunta, que foi muito legal.

Em seguida, trouxe o exercício que ele criou em que, após o estabelecimento de uma pulsação comum no caminhar - pelo espaço, novamente - todos batem palma juntos no 10, depois no 9, no 8, e assim por diante. Apesar das dificuldades, o grupão "Latão de Shakespeare" começava a tomar cara.


Depois foi a vez dele explorar o exercício, ainda sem nome, que ele tem desenvolvido neste processo, de espalhar os instrumentos pelo espaço e fazer os atores andarem entre eles, depois explorarem os sons, com a boca, de cada instrumento e, por fim, tocarem os instrumentos. Quando os instrumentos começaram a ser tocados, foi um caos! Aquele monte de gente tocando junto, todos famintos por fazer sons, alguns querendo conhecer instrumentos que nunca tinham tocado, todos loucos pra fazer uma jam juntos, foi engraçadíssimo. O Marco conduziu muito bem o controle entre o fazer e o escutar, e em algum tempo aquele monte de gente que acabara de se conhecer tava se entendendo muito bem, fazendo música juntos, muito bonito. Pra finalizar, o Marco puxou a música que o Márcio Marciano nos ensinou, aquela do "sol nascente quando sai, pela rua a passear...", numa ótima sacada que todos, ou quase todos, saberiam cantar. Os meninos do Latão ainda cantaram algumas outras músicas, antes de seguirmos em frente. Cantar é sempre bom...

O Sérgio e o Martin, então, propuseram um exercício que o Latão costuma trabalhar, chamado paisagem sonora. A partir de uma situação/estímulo, que no caso foi "a partida para o mar", os atores improvisam sons e vão criando fragmentos de situações, estímulos cênicos, sempre em relação ao outro. Obviamente, como não poderia deixar de ser em relação ao Latão, e que pra nós foi muito esclarecedor em relação a questionamentos que o processo do Capitão tem nos trazido, a busca por uma relação dialética é uma condição! A partir do que os atores propunham, o Sérgio comentava, o que ia enriquecendo imensamente o exercício. Eu, de fora, babava e aproveitava o que podia para tentar enxergar "pelos olhos do Sérgio"!


Então não resisti à minha atitude de voyeur que tinha determinado em me manter, e propus uma segunda rodada de paisagem sonora, desta vez oferecendo, como estímulo, uma edição de trechos do livro do André que descreviam a trupe. Uma puxada violenta e explícita de brasa para a nossa sardinha, mas confesso que sem culpa nenhuma. Afinal, não é qualquer um, nem todo dia que se tem a Cia. do Latão na sua sede!!!!

O exercício trouxe situações, personagens, imagens, sonoridades e outros elementos muito ricos! Surgiram algumas pérolas, como a menina que queria ir embora com a trupe (mas não indo); o artista velho aconselhando a novata a ter cuidado com os homens dali (mas assediando-a descaradamente); a dançarina do Rodrigo, dúbia só pela imagem proposta; o puxa-saco do prefeito da cidade que, com a recusa do pagamento de um cachê, inverte sua posição; a banguela que queria beijar a bailarina; a dondoca que não parava de repetir: "a arte popular me emociona!", e me fez lembrar de imediato da Dona Clarabela, da Farsa da Boa Preguiça; dentre vários outros.

O Sérgio fez algumas indicações muito interessantes, em especial que o outro é quem te modifica - ou, como diria o Sartre, o inferno são os outros - e a lembrança constante de que "a trupe estava passando", que trazia uma urgência às ações dos atores que geravam vida ao exercício.


Fizemos um intervalo, e logo após sentamos para bater um papo, fazer uma avaliação. Do papo, rapidamente surgiu o assunto do Capitão. Falamos um pouco sobre a obra, sobre como está o processo e, principalmente, por que prisma estamos tentando abordar o texto e o tema. Apesar da riqueza de tudo que fizemos nessa tarde, pra mim esse momento foi o mais precioso. O Sérgio apontou algumas questões muito reveladoras para nós, em especial a questão de como é um pensamento do mundo contemporâneo essa busca por uma trajetória individual, pensamento tão "Paulo Coelho", como ele bem ilustrou, assim como alertou ao risco de sermos moralistas às avessas, defendendo o coletivo cego. Lembrou como o Brecht encara a questão do coletivo de forma dialética, usando O Homem é um Homem como exemplo, em que o Galy Gay vira uma máquina de destruição cega ao ser incorporado pelo coletivo. Presentes...

Para finalizar o trabalho, fizemos um exercício sobre uma cena de Mãe Coragem, "A canção da grande capitulação", uma dinâmica que eles normalmente fazem em oficinas. Após lermos o texto e eles falarem um pouco sobre a obra e aquele momento da peça, nos ensinaram um arranjo de uma música com abertura de vozes em cima da frase "de quem se senta não vem revolta nenhuma", e depois fizemos uma brincadeira com o texto lido, em fragmentos, improvisadamente, enquanto a música era cantada.


Com a hora avançada e a reunião do Redemoinho Natal - que o Ney e o Sérgio participariam - prestes a começar, finalizamos o trabalho, para ajeitarmos as coisas, alguns comerem, etc. Daí a única ressalva à excelente tarde que tivemos: com a correria, e a nossa suposição falsa de que todos ficariam para a reunião do Redemoinho, acabamos não fazendo nem uma rodinha final, um agradecimento, nada...

Portanto, publicamente, deixo aqui nossa mais sincera gratidão aos queridos irmãos do Latão, por toda a semana que tivemos junto, e em especial por esta tarde, que tanto nos aproxima, quando tratamos de compartilhar também nossas práticas, e não apenas o discurso que, por mais importante e fascinante que seja, também é coberto de defesas, estetizações e idealizações que mais distanciam do que aproximam. Voltem logo e sempre!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Momentos do Capitão

O trabalho de hoje começou com um exercício que Marco propôs de dividir em momentos a história d’O Capitão e a Sereia, para que depois esses momentos pudessem ser traduzidos em sons.


Os meninos conseguiram dividir o livro em sete momentos: Menino Marinho e seus sonhos aquáticos; O êxodo do herói; Encontrando pares; Circulando com a trupe; Em busca de outros mares; O canto da sereia; e Gosto de marasmo – o retorno.


A partir dessa divisão do livro e de uma ordem estabelecida de quem era o primeiro, segundo, terceiro e quarto a contar os momentos, eles iniciaram a contação ainda sentados, procurando ser objetivos e sucintos na narração. Depois eles se levantaram e, enquanto faziam massagens uns nos outros, eu falava o título dos momentos, e eles começavam a contar.


Fizeram a contação obedecendo a sequência do livro e depois de modo aleatório. Marco ia conduzindo o exercício, e após algum tempo eles começaram a acrescentar elementos à contação, dizendo coisas que no texto de André não estavam escritas.


Eles contaram a história em pé, sentados e deitados. Nesse meio tempo, Fê chegou ao Barracão e interferiu um pouco no exercício, dando orientações para Camille. Depois ele pediu que os meninos encerrassem o exercício, pois queria trabalhar com os workshops que eles haviam criado em duplas. Fê havia pedido que os meninos contassem a página 9 do livro, sentados em bancos e procurando dar mais atenção a narração.


César e Renata apresentaram uma cena em que César era um apresentador de um programa policial de televisão e Renata a entrevistada, que não podia mostrar o seu rosto. Os meninos se utilizaram de sombra,  fazendo com que o público só enxergasse a silhueta da Rê.


Foi muito legal a imagem que eles criaram, e a forma que encontraram de contar a história, se utilizando de duas figuram que estamos acostumados a ver em televisão. Entretanto, a história ficou um pouco aquém da imagem, pois a imagem era mais interessante do que o que estava sendo contado e até a forma como eles contavam também sobressaía do que estava sendo dito. Além disso, eles focaram alguns elementos da história, como o fato do Marinho colecionar postais, que não deram conta do conteúdo da página como um todo.


Depois, foi a vez de Marco e Camille apresentarem sua cena. Eles usaram mais uma vez a cartolina com dois peixinhos desenhados e o público só podia ver a boca dos dois. Marco era um peixe mal humorado, e Tilis uma espécie de contadora de história. Eles contaram a página 8 do livro. Camille falava com as palavras do livro, descritivas e que causam dificuldade de compreensão ao espectador e Marco traduzia de forma objetiva o que ela dizia com tanto floreio.


Depois da apresentação, nós conversamos sobre a apresentação dos workshops e sobre um assunto que tem estado presente em quase todas as conversas do grupo: a forma de contar uma história, a prática do falar estando a vontade, de forma tranquila, do ator narrador. Também falamos sobre o exercício que Marco propôs de estímulos musicais. E, por último, os meninos fizeram uma reunião rápida sobre o planejamento de trabalho da outra semana, e Fê falou um pouco sobre questões que envolvem a temporada em São Paulo. E Arlindo, César e  Tilis ganharam narizes de palhaço que Fê trouxe de Sampa.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Clube das Bolinhas

20.07.09

Depois de chegar um pouco atrasado acompanhando Renata que resolvia questões de produção ligadas as apresentações dos parceiros do Latão que estão aqui essa semana, cheguei ao Barracão e encontrei o companheiro e diretor musical Danúbio já alongando-se em nosso tablado. Tablado mais do que batizado nesses últimos dias de trabalho e que agora tem recebido o suor e a ralação da mestra querida, Adelvane. Com Fernando em São Paulo ainda, depois de nossa breve aparição com o Fábulas no SESC Pompéia, com a ausência da Paulinha e com o pouco que sobrou de Camille e Cesar pós-oficina da Adê, começamos, finalmente, o trabalho com o Danúbio.

Não havíamos combinado previamente o que faríamos. Nos colocamos na idéia de trocarmos exercícios, jogos, formas de trocarmos sem grandes pretensões. Simplesmente brincarmos juntos. E assim aconteceu. Eis que nos aparece as bolinhas do Ernani. Ok, eu explico. Quando começamos um trabalho de aproximação no processo do Casamento, Ernani iniciou os exercícios usando umas bolinhas de tênis que o acompanham sempre em suas oficinas. É uma forma que ele usa de materializar a pulsação, à medida que marcamos o andamento “agarrando” as bolinhas no ar. É o pulso inteiramente palpável, literalmente. Muito simples e eficiente. De uma forma também muito simples, porém longe de ser simplória, Danúbio nos conduziu num caminho muito interessante e complementar em relação ao que estamos buscando nesse processo. É muito legal perceber como esse trabalho com as bolinhas nos coloca num envolvimento corporal e claramente visível entre a relação do tempo e do espaço na música. Mais uma evidente possibilidade forte que reforça o nosso fazer musical mais envolvido com o corpo. Como regra, tínhamos três possibilidades de criarmos células rítmicas que seriam repetidas coletivamente : usando o som dos pés no chão (traduzido na onomatopéia “TUM”), jogando a bolinha no chão (“TÊ”) e batendo palma (“TA”). Uma maneira muito legal de decupar, compartimentar e entender passo a passo a construção rítmica de uma célula musical gerada a partir de partes corporais. Um exemplo feliz de um resultado sonoro complexo a partir de um caminho simples. É, meu caro Danúbio, nesse tempo de escassez de interlocuções sobre esse assunto que tanto me inquieta e me fascina, não terei o menor pudor em “roubar” suas bolinhas do Ernani. Rsrsrs.

Depois de uma rápida água, retomamos o nosso exercício dos instrumentos no chão que descrevi no post “TEMPESTADE”, dias atrás. E não demorou nada pra que Danúbio se integrasse a nós nesse jogo. Esse exercício, feito hoje pela segunda vez, tem se mostrado muito rico nas possibilidades de caminhos apontados com as sonoridades que temos explorado. Cada momento é muito variado e distinto, o que mostra a importância de um registro de alguém que esteja externo ao jogo. Fernando e Paulinha fizeram muita falta hoje. Foi um jogo diferente, mas não menos curtido. Esse jogo tem despertado uma grande potência cênica na relação da música como agente criador e voz autônoma no processo. Foi bom refazer e perceber que não existe limites para usá-lo nesse momento. Será usado outras vezes. Inclusive amanhã, já que enquanto fazíamos me veio uma idéia que acho que pode ser útil na compreensão de uma dramaturgia mais palpável, pelo menos por enquanto, ou como um dos pontos de partida agora. Depois escreveremos aqui como isso se deu. Até lá.