sábado, 11 de julho de 2009
Coisas
Cada vez me envolvo mais com esse processo. Hoje fiquei até nervosa, e não me pergunte o porquê, pois não saberia responder. A apresentação foi muito bonita, porém tiveram alguns momentos que foram menos curtidos, e acho isso porque tenho a referência dos ensaios que assisti. Ao mesmo tempo, os meninos na cena dos pescadores brincaram e contaram a história de modo que equilibraram as duas coisas, conseguimos rir e entender o que estava sendo contado.
Já na narração das meninas, por causa da imagem das lamparinas e do efeito do mar, tive dificuldade de me concentrar na história, até porque estava preocupada com aqueles lampiões acessos, com medo de que escorregassem. E a música do final, tocada pelos meninos foi bem mais curtida por eles. É impressionante ver como essa melodia é encantadora, o quanto ela emociona o as pessoas.
Ana Maria Braga
Nossos puros maltes 18 anos respondem pelos nomes de Márcio Marciano, João Lima e Helder Vasconcelos, além dos demais colaboradores que passaram - e estão passando - pelo Barracão neste primeiro mês de processo que se finda. Degustamos o melhor que esses profissionais, tão parecidos na qualidade, seriedade e ética de trabalho, mas tão distantes, em alguns aspectos até opostos, no pensamento e nos procedimentos de trabalho, deixaram para nós nessas três semanas de imersões, de mergulhos, e mergulhões.
Durante a semana de trabalho, me deparei pela primeira vez com a "responsabilidade" de "dirigir" um experimento, para ser apresentado no Barracantes. As aspas se dão porque, em primeiro lugar, não pesou nenhum tipo de responsabilidade: esse formato arreganhado de processo que estamos experimentando nos coloca numa posição de extremo conforto - na melhor acepção da palavra - e tranquilidade em ser absolutamente honesto com o material que criamos, sem preocupação com a espetacularidade do resultado que, apesar de tudo, está lá! Pero que las hay, las hay!!! Em segundo lugar, porque "dirigir" é um termo controverso em processo tão coletivo e com tamanho grau de contribuição de todo o elenco, do Marco como diretor musical, e de todos os outros colaboradores...
Passei a semana pensando em como encontrar uma forma de organizar uma parte do material que temos para levar ao público de forma a tentar organizar um discurso - cênico, não verbal - para começar a responder a uma das perguntas do debate no último sábado: "Como esse trabalho com o Helder vai ser usado no espetáculo?". Ampliei a questão para pensar como todas essa influências serão utilizadas no espetáculo, e aproveitei o luxo de ter um espaço de experimentação, com público e tudo, durante todo o processo, para testar costuras, encaixes, diálogos entre soluções, entre materiais, abordagens mais "encantatórias", outras provocadoras, geradoras de distanciamentos, etc.
Então, usei um pouco de cada ingrediente que nossos parceiros deixaram, e testei uma receita nova: uma xícara de chá de dialética marciana, duas colheres de sopa de neutralidade e estado de "ser" limísticas, pitadas de pulsação do baião vasconcélica à gosto (confesso que usamos em excesso, mas ficou uma delícia) e, por fim, muita energia do "jeito de fazer" dos brincantes do Cavalo Marinho polvilhada por cima. Deu certo! Deu jogo! Deu samba! No samba! Aí dentro!
Até a luz do Espiral foi praticamente toda usada, sem mexer. Só quatro refletores reafinados. Uma tarde muito baba pro Ronaldo.
Tivemos um público de quase quarenta pessoas. Apesar de não estarmos muito preocupados com a quantidade de pessoas que vão acompanhar o processo, não posso negar que fiquei muito feliz. Senti falta dos três mosqueteiros, Sávio e as duas meninas - perdoem-me, não lembro o nome de vocês! - que desde o princípio vêm mantendo a regularidade. Falta na caderneta! Semana que vem mandaremos um bilhete para os pais!
Além de quantidade, muita qualidade na plateia. Alguns que nunca tinham vindo, outros que retornaram. Três figuras importantes do teatro nordestino: Lindolfo Amaral, Luiz Carlos Vasconcelos e Eleonora Montenegro, que estão de passagem pela cidade para uma curadoria. Vieram acompanhados da Ivonete Albano, grande artista potiguar, e com quem tive alguns "desentendimentos virtuais" recentemente, o que fez dessa vinda dela ainda mais bacana. E, em especial, alguns moradores da Amâncio Ramalho, nossa rua, que finalmente vieram! Em todos os Barracantes passamos pelas casas levando convites especialmente feitos para eles, chamando para virem, mas até agora ninguém tinha vindo. Neste sábado, alguns não só vieram, como participaram do debate, e prometeram voltar, super empolgados!
Foi muito bom ver o Lindolfo na plateia assistindo um experimento em roda, ele que veio trabalhar conosco ano passado e tanto falou na roda, configuração cênica que tanto gosta e pesquisa. O Luiz Carlos, que viria para o Oficinão trabalhar conosco e acabou não podendo vir por falta de datas, também fez observações muito preciosas.
O debate foi muito rico, com muitas contribuições interessantes. Acho que, aos poucos, nós e o público estamos começando a entender esse processo, entender esses Barracantes. É muito legal comentários como o do Abel, do Tropa Trupe, fazendo associações entre um experimento e outro, ou o Danúbio e a Eleonora trazendo suas experiências com a música para o nosso trabalho.
A única pena é que, por conta de uma série de compromissos, o próximo Barracantes com experimento do Capitão vai ser daqui a um mês. Nesse meio tempo, teremos eventos todos os sábados (à exceção do dia 1/8, que a Adelvane apresentará seu espetáculo A-MA-LA na Casa da Ribeira). O processo de montagem continua, mas demoraremos um pouco para voltar a ter essa troca cada vez mais saborosa com o público.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Estímulo
Em seguida, os meninos apresentaram as melodias criadas a partir da letra que Rafael Martins havia criado, e Marco apresentou a que ele havia criado. Aos poucos, os quatro trabalharam nessa melodia, jogando com movimentos e com instrumentos. Marco fala disso com mais propriedade no post dele chamado Tempestade.
Depois, eles começaram o ensaio da orquestra de músicos que, ao invés de tocar, cantam os sons de seus instrumentos. Treinaram também o tema de Marinho e fizeram ajustes para o exercício será apresentado amanhã no barracantes.
Ao final, conversamos sobre o exercício que Marco propôs de criar a melodia e Fê sugeriu que Marco desenvolvesse arranjos a partir das melodias que os meninos criaram e que buscasse dinâmicas em que os meninos pudessem ser cada vez mais participativos. Marco pediu que os meninos pesquisassem algum tipo de percussão que utilizem água.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Exercícios
Trabalhamos movimentações com o corpo no chão, pensando nas articulações e em um corpo “sem ossos”. A seguir, fizemos movimentos a partir do quadril, deixando que ele fosse o condutor, exercitamos rolamentos e Sávio mostrou algumas movimentações em duplas, e fizemos alguns movimentos acrobáticos.
Mesmo tendo participado de poucos encontros, tenho gostado cada vez mais desses momentos de contact, pois isso tem me possibilitado uma maior compreensão do meu corpo. E ao observar os meninos trabalharem, percebo que aos poucos eles tem criado uma relação corporal maior entre si, e espero que isso só venha a crescer porque para mim é claro quando dois corpos se escutam, se permitem, e acho que isso pode e deve refletir no palco, pois faz parte do jogo.
Os meninos ensaiaram a toada Fulô – não sei como ela se chama, então a chamo assim -, brincaram um pouco com a letra da música, e depois Fê pediu a Camille e César que trocassem de instrumentos, ele pegou a zabumba e ela o triângulo. Os atores treinaram um pouco como tocar os instrumentos e depois, ao invés de tocarem os instrumentos, eles cantaram apenas os sons de cada instrumento.
Depois, Fê propôs um exercício em que os atores entravam como uma orquestra sinfônica, davam uma volta circular olhando o público, mostravam os instrumentos e depois iam para o meio da roda. Marco, como maestro, pedia com gestos que os “músicos” afinassem os instrumentos, depois eles começavam, ao invés de tocar os instrumentos, a cantar os seus sons. Em seguida, Fê colocou banquinhos no centro da roda, e pediu que os atores sentassem. Depois eles levantaram e criaram movimentações a partir dos sons que cantavam e, já sentados, encontraram uma equivalência do movimento em pé.
Após o exercício, eles começaram a ensaiar o workshop da procissão. Colocaram os chapéus, os bonecos de dedo, e cantaram músicas religiosas da igreja católica. Marco trouxe uma sugestão de música nova, A Barca, que tem a ver com mar e pescador. Os adereços dos meninos são muito bonitos, porém não estão tão firmes, assim enquanto eles cantavam, tudo os chapéus, os bonecos iam caindo.
Isso me lembrou um pouco um espetáculo do grupo, O casamento, em que as coisas também desmoronam. Porém, no ensaio, ao ver a cabeça dos bonecos caindo (sem ser de propósito) me remeteu a pessoas perdendo as cabeças, sendo manipuladas pelo fanatismo religioso, e também fiquei pensando o quanto aquela imagem é forte, talvez porque eu seja “católica”, e como ela suscitou em mim, questões que ao meu ver são importantes e que merecem atenção.
Ao terminarem o ensaio, seguiu-se uma pausa rápida para repor energia e ir ao banheiro. Na volta, os meninos conversaram sobre o que experimentaram hoje e sobre as amarrações para o barracantes no sábado. E em seguida, fizeram um ensaio dos exercícios, e das idéias que tinham tido, também dividiram entre os atores a história que irão contar.
Ah, depois que Tililim saiu para fazer sua prova de inglês, os meninos ainda ficaram conversando sobre questões pessoais do grupo. E para mim foi importante estar presente nessa conversa – apesar de não ter falado nada – e ver que o grupo se preocupa não só com o trabalho, mas com cada pessoa que compõe o grupo, e também com as pessoas queridas que estão ao redor.
Bom, foi quase isso... pois sempre acontecem coisas que por escolha, ou esquecimento, acabo não relatando aqui.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Fulô
Ele arrumou o espaço com alguns instrumentos de quatro timbres diferentes, formando um relógio na sala. Daí os meninos fizeram um aquecimento andando pelo tablado, percebendo a pulsação coletiva e individual, procurando manter o espaço equilibrado, olhando no olho do outro, entre outros direcionamentos que Marco ia falando enquanto também fazia. Ainda nesse exercício, fizeram um jogo de palmas, contando de 9 a 1, procurando manter a pulsação e a contagem, enquanto Fê pedia para os atores pararem em alguns momentos, e depois continuarem.
Fotos: Maurício RêgoSeguindo, três atores sentaram nos cajons, e um ficou no meio da roda. O exercício era explorar os instrumentos, enquanto a pessoa que estava no meio também explorava movimentos, texto, canção, o que quisesse. Aos poucos quem estava no meio, usando um passo do Mergulhão, chamava o outro para o meio, e ia para o instrumento. Todos passaram pelo meio da roda e por todos os instrumentos.
Fê interferiu no exercício do César, e depois da Renata, fazendo algumas intervenções. Depois, pediu que Marco lembrasse da história do Velho do Mar – que não é O Velho e o Mar – apenas em pensamento relembrando a figura do pescador que havia criado em um workshop junto com César. Depois, César também entrou e aos poucos eles foram criando relação. Enquanto isso, Tililim, Rê e Fê estavam tocando instrumentos. Primeiro Marco começou a contar a história e quando ele parou César continuou, como pescadores. Depois apenas como narrador.

Depois, as meninas entraram na roda, e os meninos saíram e assumiram os instrumentos. Enquanto os instrumentos tinham um batida forte, as meninas jogavam com movimentos no meio da roda, depois uma delas batia com os pés no chão, e começava a contar a história, procurando apenas narrá-la, sem teatralizar. Após algumas trocas, elas contaram a história ao mesmo tempo, sendo que cada uma voltada para uma parte do público.
Em outro exercício proposto por Marco, os meninos cantavam uma toada, que aprendemos na semana com Helder, e um deles era o capitão, e o restante o coro. Cada um, na sua vez, era o capitão. Tudo o que o capitão fazia de movimentações, o coro repetia. Surgiram movimentos bem interessantes.

Ao terminar o exercício, Marco pediu que os meninos em casa pensassem numa melodia para a letra de música que Rafael Martins criou.
Fê colocou alguns instrumentos no centro da roda. César pegou a sanfona, Camille a zabumba, Renata o coquinho, e Marco o triângulo. Eles tocaram os instrumentos, cantando a toada “Plantei jerimum...”, procurando ajustar a melodia, e depois Fê pediu que Marco e César trocassem de instrumentos. Os meninos brincaram um pouco ao cantar. Fernando pediu que eles registrassem um pouco do jogo que havia surgido entre eles.

Por fim, sentamos no chão e conversamos sobre como foi o dia. E a música ficou na minha cabeça...
“Plantei jerimum estendeu não butô (2x)
Viero as menina e apanharo a fulô (2x)
Fulô, Fulô
Viero as menina e apanharo a fulô (2x)”
terça-feira, 7 de julho de 2009
Portas Abertas
Como Fê disse, sábado a gente fechou o primeiro ciclo de trabalho, pois depois de algumas semanas trabalhando com pessoas diferentes, agora o grupo começa a caminhar “sozinho”, embora com portas abertas.
A partir disso conversamos sobre as sensações desse primeiro momento do processo e as contribuições que ficaram desses parceiros. Falamos um pouco sobre o desenvolvimento do trabalho do ator e a busca pela forma de narrar, que gere um distanciamento mesmo mantendo a poesia, tendo consciência de um discurso cênico que trabalhe esse olhar dialético sobre a criação, que tem sido algo que o grupo deseja se apropriar.
Falamos também do ator em função do teatro, das percepções de Gabriela com relação à cenografia nesse momento, das fichas que caíram após algumas oficinas, da relação de respeito entre o grupo e parceiros, da forma como o grupo se utilizará das informações, do que foi degustado nessas últimas semanas, e da saudade que ficou de bons momentos.
Seguindo, Fê direcionou o trabalho das próximas semanas. Pediu que os meninos fizessem um workshop a partir de algumas ilustrações do livro, assim cada um escolheu uma página, e irá criar fotografias a partir delas. Também falou para Marco pensar em uma pulsação marcada na cena da pescaria criada durante a semana que passou.
Organizada a semana, os meninos fizeram um aquecimento em círculo usando um jogo de palavras, um ator dizia uma palavra e o seguinte falava outra correlata, mantendo a pulsação com o estalar dos dedos. Depois, Fê fez outros direcionamentos dentro do mesmo jogo, pediu que falassem as palavras mantendo uma movimentação, girando em círculo, se movimentando pelo espaço mantendo a pulsação, depois acrescentou uma palma ao ritmo.
Após o jogo, os meninos iam trabalhar no workshop do Marco e da Gabi, que tem relação com a ilustração da página 13 do livro do Capitão. Entretanto, isso teve que ficar para amanhã, pois houve algumas interrupções durante o dia para resolver arte gráfica e receber os cajons, novos brinquedinhos para a diversão musical do grupo.
Os brinquedinhos novos...
sábado, 4 de julho de 2009
O mundo da roda gira e eu viro o mundo ao rodar...
Começamos o dia dando uma geral no espaço para receber os parceiros do Ser Tão Teatro, grupo paraibano com quem vamos compartilhar uma montagem logo após finalizar a temporada de estreia do Capitão. Eles vieram justamente para fazermos os últimos acertos de produção, calendário, etc. Apenas a diretora, a Christina Streva, e uma das atrizes, a Isadora, conheciam o espaço. Os demais conheceram agora. Almoçamos todos juntos e fizemos uma boa reunião, com leitura do primeiro ato do texto que vamos trabalhar, A Farsa da Boa Preguiça, do Ariano Suassuna. A leitura foi bem divertida, é sempre bom estar em troca com outros criadores.
Durante a tarde, enquanto líamos e nos reuníamos, foi muito marcante ver o Ronaldo e o Helder montando a luz no tablado concomitantemente, com a ajuda do Alex, do Pessoal do Tarará, de Mossoró. Assim como eles, essa semana do Rafael Martins, nosso dramaturgo cearense, e o Rafa Telles, produtor, também andaram por essas bandas, fora a Paulinha, a Gaby, o Cuca e o Arlindo, tripulantes permanentes do barco. Em determinado momento, durante um intervalo, parei pra pensar nessas tantas pessoas, colaboradoras e parceiras de tantos lugares diferentes, além dos que já passaram, e os que ainda vão chegar, como o Lima, o Márcio, a Wanda, a Mona, o André, a Adelvane, o Pablo, o Latão, etc, etc, etc, etc. Tem sido um processo muito rico, refletindo um momento muito feliz pra nós.
Ronaldo mandando ver na afinação de luz. Fotos: Maurício Rêgo.
Espaço quase pronto.





Antes da noite tão especial que tivemos, um minuto de silêncio: uma hora antes do espetáculo, eu fiz a proeza de queimar nossa mesa nova de som, que seria estreada oficialmente em seguida... Sem comentários...
À noite, um episódio à parte. Mais de 150 pessoas no Barracão para assistir o Espiral Brinquedo Meu, do Helder. A casa muito cheia, o espetáculo lindo, as pessoas super envolvidas, realmente uma amostra grátis do que poderá ser nossa temporada aqui no Barracão.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Nacional de Patos
Depois disso, Helder conversou sobre o que a gente iria trabalhar, pediu que explorássemos um fazer, e disse que daríamos uma geral em tudo!
Cada um foi para um lugar do tablado, deitou-se no chão, e a partir daí buscou a pulsação interna. Aos poucos fomos ficando de pé, mantendo a pulsação, e depois trabalhando com os parâmetros, e às vezes se permitindo sair do trilho. Depois de um tempo, Helder entregou um instrumento para cada pessoa, e começamos a tocar, e perceber como é se movimentar, como é esse jeito de fazer usando um instrumento.
Cantamos toadas, brincamos, fizemos uma roda, dançamos, e criamos rimas, algumas bem “baixas”, por sinal! Bom demais!!!!
E para completar o dia jogamos uma peladinha, eu e Helder contra Marco e Fernando! Nacional de Patos x Íbis!!! Foram três partidas, na primeira o timeco do Íbis ganhou, na segunda, dá-lhe Nacional de Patos e, na terceira, após muita robalheira do Íbis, o Nacional resistiu fortemente e levou a melhor! Rsrsrs...
Casualidade criativa!!
Costumo chamar de casualidade criativa aquela idéia ou solução que surge ao acaso, sem que seja pensada e estruturada previamente, e que acaba por ser incorporada ao resultado final da obra.
Logo após o término do ensaio geral do experimento de João Lima no sábado passado, fiquei aperfeiçoando alguns efeitos de luz, como sempre faço quando estou no período de descobertas, quando de repente o João gritou: Ronaldo, você viu isso! Em um súbito momento, Tililim se posicionou de pé atrás do aquário do Marin, ao centro do tablado, que estava sendo iluminado por 2 pimbins (pequenos refletores). A reflexão da luz na água em movimento, naquele determinado ângulo dos refletores, projetou no rosto da criaaaaannçççaa um efeito tremeluzente que se parece com aquele que é projetado em paredes próximas a piscinas iluminadas pela luz do sol.
Prontamente João disse: quero esse efeito no experimento! Rapidamente nos colocamos a organizar como faríamos para executar a idéia, marcando o lugar exato de posicionamento, ajustando o encadeamento de ações da Tililim e a operação de luz que eu deveria executar até que aparecesse o tal efeito luminoso. Na apresentação... lá estava ele, iluminando o rosto da querida criaaannnçççaa!!
Só para registrar...
Marco, parceiro! Por favor, me acorda, ok?
Primeiros versos...
A letra seria um alerta da trupe ao Capitão, quando os integrantes percebem sua apatia no trabalho, seus devaneios e sua crescente tendência a “abandonar o barco”. Por isso os versos exaltam o trabalho em detrimento da ilusão. Falam de firmeza, resistência, colaboração.
É muito direta, objetiva. Imperativa, até. A métrica e as sílabas tônicas impõem uma pulsação forte, enérgica, constante como uma marcha. E mesmo sem enfeitar, busquei ser sonoro.
Marco, na noite de terça, me mostrou uma cena do filme Moby Dick (baseado no romance clássico de Herman Melville). Devido a isso, pensei na trupe içando velas e cantando esta letra enquanto Marinho ficaria ali por perto, só divagando. Ao final o barco seguiria e Marinho decidiria ficar, oferecendo assim uma imagem diferente do livro, onde Marinho parece ir, e a trupe parece ficar.
Neste caso, quem pareceria estar em movimento (seguindo adiante em todos os sentidos) seria a trupe. São tentavivas minhas de refazer o olhar sobre a estória. Não sei se chega a ser a tal da “dialetização do olhar”, que ainda estou assimilando. Mas estou na tentativa, ok?
Enfim... Apenas sugestões e ideias para alimentar nossa empolgação.
- SEJA FIRME, CAPITÃO -
Seja firme, Capitão!
No convés da embarcação
Seja firme, Capitão!
Tudo o mais é ilusão
Seja firme, Capitão
Afrontando a calmaria
Pois aqui, com pés no chão
É que nosso mar se cria
Não espere paciente
Outra onda que te ocupe
Mude tudo com a gente
Surpreenda a sua trupe
Acredite na barcaça
Navegando com bravura
Quando a dança descompassa
Resistir é aventura
Colabore, não piore
Nem oscile como a onda
Não ancore nem se escore
Nunca fuja nem se esconda
Seja firme, Capitão!
No convés da embarcação
Seja firme, Capitão!
Tudo o mais é ilusão
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Fuá na casa dos Clowns



Tivemos uma boa conversa em seguida para avaliar o trabalho, que continuou um pouquinho mesmo depois da saída do Sávio.
Durante o intervalo, o Marco e o Helder começaram a brincar com o acordeom e o piano, como costumeiramente têm feito nas horas de folga. O Rafa Martins rapidamente pegou o pandeiro e juntou-se a eles. Aos poucos, todos fomos chegando. Quando menos percebemos, estávamos quase todos tocando. Não acreditei quando me vi tocando e cantando “Fuá na Casa de Cabral” junto com Helder Vasconcelos, do Mestre Ambrósio!!! Fiquei realmente emocionado, de verdade!

O Helder muito habilmente aproveitou que todos começavam a se envolver com a música – ele no acordeom, Marco no piano (e depois no pandeiro), eu nos caxixis, Renata na baje, Tili com as claves, César com a zabumba e os demais (inclusive o Rafa Martins e a Gabriela) na palma – e puxou todos para o centro da sala, e começou a cantar, tocar e rodar. A partir de então, foi puxando cada vez mais, todos se envolvendo, quase em transe (rsrs), dançando, tocando e cantando muito, e quando menos percebemos tínhamos acessado o mesmo estado de jogo/pulsação. Golpe de mestre do Mestre Helder Ambrósio!!!!

Ao final, exaustos e bem felizes, decidimos levar à sério a provocação/brincadeira do Marco, e combinamos seguir para meu prédio pra tomar um banho de piscina, e depois assistir ao DVD do Cavalo Marinho Estrela de Ouro. No entanto, como o Helder teria que dar uma entrevista para o “Solto na Cidade”, e estava esperando o repórter, acabamos abortando a piscina, mas mantendo o DVD.
Viemos ao meu apartamento, ficamos conversando sobre muitas coisas, curtindo o momento de interação social, que tivemos pouca oportunidade durante a semana. Pedimos pastéis – que chegaram moles e empapados em óleo – mas nos divertimos bastante. Vimos várias fotos que o Cuca fez do processo até agora, o Helder também mostrou fotos do Cavalo Marinho e, por fim, assistimos o DVD, com comentários Helder explicando cada momento da brincadeira.
E só falta um diazinho... E a saudade de "pinotar" já batendo...
Amaciando a madeira
Pobres batatas. Quais? Das pernas, das minhas, das nossas. Trabalhando já há três dias com o Mestre Helder, o nosso Capitão nessa "empeleita" rumo aos caminhos e ao universo do Cavalo-Marinho, eis que percebo que nasce uma batata. A da perna. Não sabia que tinha uma, digo, duas.
Acho que depois de um ano e meio de uso no nosso espaço, finalmente agora, nessa semana de trabalho, o chão, o tablado, área de trabalho foi amaciado. Na base do pisão, é claro. E o pulso ainda pulsa. E também foi a semana de estreia do nosso som. E que som! Havíamos comprado pós Fábulas na Escola e só agora, depois de termos ficado na mão com o som que usávamos pra tudo e que, aparentemente queimou algo, deu o ar, ou melhor, o som das graças. Graves, médios e agudos na medida certa. Quem for esse sábado para ver o ESPIRAL BRINQUEDO MEU, espetáculo do Helder e que será a atração do Barracantes do dia 4 de julho, ouvirá essa beleza funcionando. Bom, eu acho lindo!!
Das terras do Cavalo-Marinho e do Maracatu, vieram na bagagem do incansável Helder os nossos efeitos de mar que compramos à distância, do luthier Abílio, onde já tivemos o prazer de conhecer seus instrumentos e adiquirir alguns deles desde o primeiro contato musical, na montagem do Muito Barulho, em 2003. Hoje a tarde, com dois dias de atraso, finalmente receberemos os nossos cajons. Não vejo a hora de começarmos a brincar com eles.
Dentre as tantas novidades em meio a esse processo, continuo a levar "caldos" e mais "caldos" a cada dia. Nunca havia experimentado a verdadeira sensação do resultdo de um trabalho que se baseia na exaustão, como estamos vivenciando nesta semana de trabalho. Trabalhar com base na pulsação ininterrupta, resignifica muito pra mim esse caminho de construção energética. Fichas começam a cair. Peças a se encaixar. Tem sido uma rica experiência musical ligada diretamente e de forma mais palpável ao corpo. É onde se dá o privilégio dos encontros com profissionais tão importantes e que já começam a escrever a história dessa história que começamos a contar.
Falando em escrever, recebemos o nosso dramaturgo e bagaceiro Rafael Martins, que também já deu seu ar por aqui. Pobre homem, pouco sono e muita coisa a processar. Ele tem estado no seu cantinho, de longe, a observar. E a escrever. É só o começo.
Bem-vindo Rafa, Helder e João Lima que deixou saudades aqui, mas finalmente apareceu por essas bandas virtuais e que tanto nos aproxima.
E vamo que vamo!!
Mais um nesta rica tripulação
E assim foi minha semana de trabalho com o grupo. O primeiro dia, embora eu tenha trabalhado dando inicio a um plano que seguiria a semana toda, serviu apenas de reconhecimento. Para o dia seguinte tudo foi mudado radicalmente. Regras da navegação: as velas tem que ser manobradas conforme o vento sopra. Felizmente eu estava diante de um grupo de atores muito comprometidos com o projeto e generosamente abertos para experimentar. Se deixaram conduzir, ativamente e com muito entusiasmo e inventividade. Com esse clima propício e tendo virado o leme no segundo dia, no terceiro dia já surgiu o que seria o esqueleto do que mostraríamos para o público no final do processo. Tudo sem deixar de primar pelo que era mais importante, a troca de experiência e não o resultado final. Conclusão, tivemos algo condizente com a qualidade e seriedade do grupo como mostra desse processo de uma semana, eu aprendi muito como diretor ao colocar a prova a minha experiência e por trocar com um elenco tão maduro e generoso e acredito que o grupo também saiu com alguma coisa. Se de tudo que trabalhamos, conversamos nada tiver um aproveitamento direto, pelo menos serviu para fazê-los refletir sobre seus pontos de vistas a cerca de seus trabalhos.
Foi um prazer conhecê-los mais de perto. Não vou desejar boa sorte nessa empreitada porque acho que ela já está com vocês, porque ela sempre acompanha quem trabalha com dedicação, carinho e seriedade. Um grande beijo a todos.
Organizando as idéias
1- BUSCANDO COMPREENDER (Questões iniciais)
Antes de iniciar a construção textual, acho importante me conectar ao sentido maior da montagem. Buscar o porquê, a necessidade que deu início a tudo. Sei da admiração de todos pelo livro de André, mas sei também que a escolha se deu de forma pragmática, visando atender às prerrogativas do edital, já que havia apenas uma semana para o encerramento das inscrições.
A urgência, digamos assim, foi motivação. Portanto, não pude desprezar este elemento. Precisei encontrar as raízes dessa urgência. Uma delas, obviamente, está na possibilidade de uma montagem patrocinada. Quase todos os grupos se inscrevem em editais, mas eu precisava achar o que se passava “neste” grupo, e não em outro qualquer. O que alimentava essa urgência.
De cara, tenho um grupo exponencial da região Nordeste, em crescente reconhecimento externo. Internamente, porém, o grupo passou por um maremoto que levou alguns membros. Depois das fortes ondas, o primeiro movimento é o de se por em pé, até mesmo por impulso. É humano. Diante do alarme, primeiro reagir. Depois pensar.
Imagino que este impulso de reafirmação, por parte dos que ficaram, seja o cerne de tudo. Mas não é tão simples. A equipe mudou, o grupo se afunilou. Trata-se de uma nova configuração. Se as coisas já não são as mesmas de antes, reafirmar-se, neste caso, será também reentender-se.
2- ATO DE RESISTÊNCIA
Quando um grupo pretende se reentender, volta às perguntas mais básicas, como:
- O que nos une?
- Porque ficamos nós?
- O que queremos do teatro?
- O que “não” queremos?
- Qual a essência do que fizemos até agora?
- Quem sou eu para meu grupo?
- O que é a nossa arte diante do mundo?
Questões tão amplas que jamais teremos todas as respostas. Devemos sempre estar nessa revisão interior. Mas há momentos excepcionais, em que essas perguntas nos vêem com mais intensidade, tornando-se a própria matéria de construção do espetáculo. Acredito que este seja o caso.
A montagem de O CAPITÃO E A SEREIA me parece, cada vez mais, uma auto-reflexão sobre a condição existencial (e até mesmo material) do próprio teatro. Uma atitude de resistência a tudo, nos mais diversos sentidos.
Daí a ideia de uma peça que valorize o trabalho do artista. Quanto ao processo, o grupo já começa a definir opções estéticas coerentes com o pensamento de resistência: pretende buscar o que o teatro tem de inconfundível e, sobretudo, insubstituível. Sem floreios, sem maiores efeitos.
Em tudo a concepção desta peça me parece um retorno ao embrionário. Na forma e no conteúdo. Da simplicidade das perguntas à precariedade do fazer. E fazer simples é muito difícil. Como diz Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho".
Ser simples é não enfeitar, é ir direto ao ponto. Nada mais importa, a não ser o essencial. Daí a busca por esse teatro-manufatura, pela teatralidade que se revela aos olhos da platéia, que desmistifica inclusive o glamour da surpresa, da estréia. Que vai se mostrando passo a passo como exercício, como trabalho suado.
3- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pensando numa escrita sob medida, acredito cada vez mais na importância de trazermos a história O CAPITÃO E A SEREIA para perto da própria história do Clowns. Que as trupes por vezes misturem e se confundam. Uma sugestão que surgiu no blog me parece ser uma boa ferramenta: a ênfase estar no olhar da trupe, e não no de Marinho. Enfim, ideias continuarão surgindo, mas quis destacar essa, que me chamou atenção.
Fundamental mesmo é pensarmos maneiras de realçar essas relações de cooperação e cumplicidade. Um correndo para colocar o cenário para o outro, um tocando para o outro que canta, alguém limpando o chão para a cena do outro... sei lá. São apenas exemplos tolos. Falo de mostrarmos que o teatro é uma experiência coletiva profunda. Resistir, resistir, resistir!
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Seu Ambrósio
A partir disso, o grupo se dividiu em duas unidades, a partir da semelhança dos fazeres. Brincamos a partir dessas duas unidades, uma era o centro do círculo e a outra a parte de fora, e essas se relacionavam.

Acabado esse primeiro momento, Fernando leu uma história do livro “Histórias do Mar”, chamada “O Velho do Mar”, conto tradicional da Sibéria. Depois, dividiu os atores em duplas: meninos para um lado, meninas pro outro. Seguiu-se uma pausa para um lanche rápido, e depois Helder leu a história novamente, e Fê deu 10 minutos para os meninos fazerem o workshop.
O importante não era contar a história tal e qual, mas sim brincar com a pulsação, o andamento, com o ritmo do baião.
Helder observa atentoCésar e Marco foram os primeiros a apresentar. Eles criaram a imagem de dois pescadores no mar, sentados num barco, um de costas para o outro, segurando suas varas de pescar, lembrando de uma história que havia acontecido. Eles brincaram com onomatopéias, com repetição de palavras, com movimentos, buscando permanecer no mesmo andamento. O tempo todo faziam jogos de palavras com muita picardia, sempre um provocando o outro.
Em um provável momento de "baixaria", César e Marco pescam e se divertemDepois, Renata e Camille contaram a história. Elas pediram que os ouvintes deitassem no chão e fechassem os olhos. Desenharam no chão, ao redor de cada pessoa, redes. Usaram o reco-reco, a escaleta, e um pano.
Renata e Camille contam sua história pra platéia nas redesAssim que elas acabaram de contar a história, sentamos e conversamos sobre as duas apresentações. Helder falou que era preciso deixar mais claro o trilho, ter mais precisão, e que o baião não permaneceu dentro (interno) o tempo inteiro.
Os meninos falaram da dificuldade de manter a pulsação na relação com o outro, e ser conduzido pela pulsação da cena. Fernando disse que acredita que isso vem com a repetição, que é necessário treinar para chegar a isso, que é importante ter a consciência, e isso eles tinham, agora é preciso apropriação.
Em seguida, Fernando pediu que Marco e Helder pensassem em uma pulsação, em música, que pudesse ser usada nas cenas que foram apresentadas, sem medo de radicalizar. E para Rafa pediu que trouxesse um texto, também baseado nas cenas.
Após a conversa, os meninos começaram a brincadeira. Helder mostrou um pouquinho da brincadeira do Cavalo Marinho. Os meninos pegaram alguns instrumentos e formaram o banco, e Renata ficou sendo o Capitão. Helder fez o Ambrósio. Eles brincaram, cantaram toadas, viram as figuras que o Ambrósio trouxe, bom demais!
Cada dia de trabalho tem sido mais divertido do que o outro mesmo com tanto calo nos pés.





