quarta-feira, 29 de julho de 2009

Abigobel é um pastor alemão

Nossa querida Adelvane conduziu o trabalho de hoje no barracão. Para começar o grupo fez a saudação ao sol que é uma sequência de movimentos do ioga. Fizemos também a postura da árvore e um exercício de prender a respiração e soltar. Tudo muito calmo diante do furacão que estava por vir.


Segundo Adelvane, a ioga proporciona concentração, equilíbrio, baixa a ansiedade, entre outras coisas. Eu concordo com ela, ao menos com relação a esse exercício, pois fiz essa sequência durante toda a oficina dela de iniciação ao clown na semana passada, e me sentia alongada, aquecida, concentrada e tranquila para o desenrolar da oficina.


Depois do ioga, os meninos deitaram no chão e iniciaram o treinamento pré-expressivo. Aos poucos a energia foi surgindo e Adê fazendo os comandos de acordo com o jogo entre eles. Ela pegou alguns instrumentos para que fossem um estímulo para a mudança corporal dos meninos. A princípio pareciam todos bichos, animais, ela começou a maltratar todos, puxando cabelo, batendo, Marco foi logo para o chão e ficou soltando uns sons de lamentação, daí todos maltrataram ele, e aos poucos ele foi reagindo, batendo quando conseguia nos outros. Empurraram comida na boca dele para que ele tocasse a sanfona, sujaram todo o chão, se bateram... Marco chegou a cuspir em Adê que também revidou. Cuspiu no chão. Uma nojeira só, mas que deu um novo estímulo para que o jogo crescesse.


Adê pegou alguns figurinos e foi vestindo em cada um, assim foram surgindo algumas figuras bem grotescas que se relacionavam entre si. Ainda no jogo e cada qual com uma exploração corporal diferente, criaram algumas figuras que a Adê ia direcionando. Inclusive a Adê havia pedido que Rê fosse a mãe do garotinho que Marco fazia, mas a Rê, ao que me parece não entendeu e se comportou como uma amiguinha dele, sendo que Marco havia entendido o comando da Adê e se comportou como se Rê fosse a mãe.


Algumas figuras criadas: Marco aleijado e menino serelepe, César velho e travesti, Renata velha do garfo e garotinha, Camille madame e rapariga. Ah! No meio do jogo o garotinho escutou o carrinho de picóle (de verdade) que passava na rua, ele gritou que queria um e a travesti correu levantou o portão e chamou o picoleiro, que mesmo vendo todas aqueles figuras estranhas, fantasiadas, não demonstrou nenhum preconceito, nem estranhamento, vendeu como se as figuras fossem pessoas comuns.


Fim de picolés, os meninos fizeram uma roda e cada um cantou um trecho de uma música, depois a Adê pediu que eles guardassem o trabalho e em seguida Fê falou para os meninos criarem duas cenas a partir do material criado. E enquanto os meninos se preparavam, quem estava de fora foi varrer e passar o pano no tablado que estava um reboliço só.


Bem, na primeira cena os meninos entraram como uma trupe cantando, tocando e cada um deles apresentou um componente enquanto os outros ficavam congelados. Abigobel cospidor de fogo e nojeiras, Velha do garfo lançadora de garfos que havia sofrido abuso quando criança durante as refeições, Teobaldo de codinome Brigite, engolidora de varas, Pirlinpimpim bailarina do circo, equilisbrista que não sabia sua origem. Os meninos refizeram de novo a cena a pedido de Fê, dessa vez com mais energia enquanto estavam congelados e explorando as vozes das personagens.


Na segunda cena, os meninos também entraram como uma trupe, Marco tocando a sanfona, os meninos foram aumentando a farra entre eles, até que o som do mar (tocado por Adê) foi aparecendo e eles ficaram enjoados - chegou ao ponto de a Rê vômitar de verdade em cena - e depois o som foi sumindo e eles voltando a cantar.


Após as duas cenas tivemos uma conversa sobre o trabalho. Comentou-se que hoje os meninos conseguiram trazer para as cenas o que havia sido criado sem perder a energia do exercício; que Camille oscilava entre a menina e a mulher (rapariga), que a construçao da velha do garfo (Rê) não era uma velha estereotipada e isso era bom, que Abigobel era um pastor alemão pois comia apenas uma vez por dia, e por fim, Adê fez alguns pedidos aos meninos, para se cuidarem fisicamente, para não terem dúvidas, para um potencializar o outro, para se jogarem também na busca individual e para manterem os laços de trabalho com ela.

Narrativa

Os meninos retomaram hoje o exercício de ler e esmiuçar duas páginas do livro do Capitão e, em duplas fizeram anotações, observações e criaram títulos para os fichamentos, que depois eles postarão no blog, a pedido de Yama.

As observações foram feitas em cima das páginas 12 e 13. O título que César e Rê criaram foi “Firmando-se na profissão”, e Marco e Tili “Uma cidade se faz com pedras e corações”. Depois de apresentadas as observações pelas duplas, Yama fez um levantamento de algumas questões que para ele o texto de André deixa em aberto, possibilitando que o grupo crie suas significações e imagine fatos que não estão ali descritos a fundo.

Ainda dentro da conversa, Yama solicitou um workshop extra para os meninos e meninas. Elas deverão entrevistar uma figura que está sempre no aeroporto de Natal, que se veste como um tripulante e é tão familiar ao ambiente que às vezes passa despercebido pelas pessoas que transitam. Eles deverão ler um livro do Paulo Coelho. Fê sugeriu o Diário de um Mago e pediu que eles fizessem uma leitura sem um olhar preconceituoso e que a partir disso criassem uma cena defendendo o ponto de vista do autor.

Após a conversa, os meninos partiram para o exercício "das 2 cadeiras", assim denominado por Fernando. A partir da leitura das páginas 12 e 13 as duplas criaram uma cena, procurando dar foco ao texto, à narrativa, buscando uma precisão na narração sem deixar as soluções cênicas sobrepujarem à comunicação.

A primeira cena apresentada foi de Rê e César. Ele caminhava pela rua com uma trouxa na mão, desempregado, e Rê aparecia como mulher-sanduíche anunciando vagas de emprego. O empregador era Marinho, e estava a procura de bons artistas pelo sertão. A segunda cena foi de Tili e Marco. Ele ficou sentado em uma cadeira narrando o texto do livro, enquanto Camille, em silêncio, fazia algumas ações que remetiam ao que estava sendo dito, utilizando chapéus, giz e corpo.

Conversamos sobre as duas cenas, e com relação à primeira, algumas observações foram feitas, tais como os meninos buscarem mais envolvimento entre aqueles dois personagens, a idéia que foi proposta é bem interessante, mas a execução podia ter sido melhor e, a partir disso Fê sugeriu uma possibilidade de dialetização da cena, que seria o uso diferenciado do que era lido (enquanto a placa não estava visível à plateia) e ao que estava realmente escrito: enquanto aquele desempregado miserável lia uma excelente oportunidade de emprego, na verdade o que estava escrito (e o público leria ao final da cena) era uma oportunidade de emprego muito ruim, mas que ainda assim parecia excelente ao indigente. Sobre a segunda, houveram momentos em que a ação de Camille se sobrepunha ao que estava sendo narrado por Marco, e foi sugerido que se criasse uma dinâmica/edição mais precisa para que isso não acontecesse.

Bem, depois da “avaliação” partimos para a leitura do blog, deu tempo de ler um texto de Marco e outro de Rê, e depois comentar um pouco entre nós.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Organizando

O contact improvisation hoje aconteceu na UFRN em uma sala do departamento de artes. Os meninos experimentaram sensações diferentes de movimentações circulares e que perfuram no espaço, para Sávio essas duas formas se complementam.

Em duplas, andaram pelo espaço mantendo o contato de superfície apenas pelas mãos e, aos poucos, foram deixando que todo o corpo se envolvesse. Depois da experimentação, Sávio pediu que eles, ainda em duplas, se deslocassem no espaço, com movimentações circulares, saindo do eixo, tendo em mente uma dança, um “valsar”. Eles começaram sozinhos, dançando, e aos poucos foram encontrando seus pares.

No exercício seguinte, eles desceram ao chão e subiram, mantendo o contato com o corpo do outro, tentando manter o equilíbrio e utilizar a frente e as costas do corpo. Depois ficaram de costas um para o outro, e uma pessoa subia nas costas do outro e buscava virar de frente. No último exercício em duplas eles levantavam um ao outro para que a pessoa ficasse com a lombar em cima do ombro.

Após essas experimentações, o grupo de C.I. foi para o momento de improviso. Eles se espalharam pela sala, e aos poucos duas duplas foram iniciando a jam e depois mais duas com música instrumental ao fundo. No final, como esses meninos adoram uma palhaçada, todos foram para cima da última dupla.

Terminado esse momento, conversamos sobre os exercícios de hoje. Algumas coisas foram ditas que acho interessante citar abaixo:

* Quando o contato superfície inicia bem já vale por toda a improvisação.

* Existem diferentes caminhos para fazer o C.I, e isso proporciona fazeres diferenciados.

* Hoje a utilização da música criou apenas uma atmosfera e não interferiu na improvisação das duplas, pois o maior estímulo era o ritmo do outro.

* A música, os objetos e mesmo a construção narrativa podem ser estímulos.

Terminado o C.I. rumamos para a sede, e Tilis trouxe uma sobremesa deliciosa para comemorar os aniversários do mês. Pablo chegou atrasado, mas foi! Legal ver você, Balu! Marco também foi mostrar aos meninos os seus novos brinquedinhos, e eles batucaram um pouquinho.

Seguindo, os meninos iniciaram uma reunião em que Fernando sugeriu uma programação para o andamento do processo do Capitão. Eles irão reler o blog aos poucos, fazer anotações e fichamentos dos exercícios que foram levantados até agora e preparar uma maratona de apresentações, também irão tentar criar de 2 a 4 roteiros sem a preocupação de acabamento. A partir disso, eles criarão um esboço cênico, para depois tentar amarrar as coisas para o espetáculo.

E por último, com Rafael Teles presente, eles conversaram sobre os andamentos da produção do Capitão entre outras coisas, e cada um foi resolver suas questões: o César, Fê e Renata para o escritório, junto com Arlindo, para ver as coisas de produção de São Paulo, enquanto eu, Marco e Tilis ficamos dando uma geral na sede, organizando o espaço dos instrumentos, arrumando o “buraco negro” (quarto ao lado do escritório que, desde o início do processo, só vem acumulando coisas jogadas uma por cima das outras), e terminamos o trabalho de forma bem produtiva.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Valsas e aniversários

O contact improvisation hoje aconteceu na UFRN em uma sala do departamento de artes. Os meninos experimentaram sensações diferentes de movimentações circulares e que perfuram no espaço, para Sávio essas duas formas se complementam.


Em duplas, andaram pelo espaço mantendo o contato de superfície apenas pelas mãos e, aos poucos, foram deixando que todo o corpo se envolvesse. Depois da experimentação, Sávio pediu que eles, ainda em duplas, se deslocassem no espaço, com movimentações circulares, saindo do eixo, tendo em mente uma dança, um “valsar”. Eles começaram sozinhos, dançando, e aos poucos foram encontrando seus pares.


No exercício seguinte, eles desceram ao chão e subiram, mantendo o contato com o corpo do outro, tentando manter o equilíbrio e utilizar a frente e as costas do corpo. Depois ficaram de costas um para o outro, e uma pessoa subia nas costas do outro e buscava virar de frente. No último exercício em duplas eles levantavam um ao outro para que a pessoa ficasse com a lombar em cima do ombro.


Após essas experimentações, o grupo de C.I. foi para o momento de improviso. Eles se espalharam pela sala, e aos poucos duas duplas foram iniciando a jam e depois mais duas com música instrumental ao fundo. No final, como esses meninos adoram uma palhaçada, todos foram para cima da última dupla.  


Terminado esse momento, conversamos sobre os exercícios de hoje. Algumas coisas foram ditas que acho interessante citar abaixo:


* Quando o contato superfície inicia bem já vale por toda a improvisação.

* Existem diferentes caminhos para fazer o C.I, e isso proporciona fazeres diferenciados.

* Hoje a utilização da música criou apenas uma atmosfera e não interferiu na improvisação das duplas, pois o maior estímulo era o ritmo do outro.

* A música, os objetos e mesmo a construção narrativa podem ser estímulos.


Terminado o C.I. rumamos para a sede, e Tilis trouxe uma sobremesa deliciosa para comemorar os aniversários do mês. Pablo chegou atrasado, mas foi! Legal ver você, Balu! Marco também foi mostrar aos meninos os seus novos brinquedinhos, e eles batucaram um pouquinho.


Seguindo, os meninos iniciaram uma reunião em que Fernando sugeriu uma programação para o andamento do processo do Capitão. Eles irão reler o blog aos poucos, fazer anotações e fichamentos dos exercícios que foram levantados até agora e preparar uma maratona de apresentações, também irão tentar criar de 2 a 4 roteiros sem a preocupação de acabamento. A partir disso, eles criarão um esboço cênico, para depois tentar amarrar as coisas para o espetáculo.


E por último, com Rafael Teles presente, eles conversaram sobre os andamentos da produção do Capitão entre outras coisas, e cada um foi resolver suas questões: o César, Fê e Renata para o escritório, junto com Arlindo, para ver as coisas de produção de São Paulo, enquanto eu, Marco e Tilis ficamos dando uma geral na sede, organizando o espaço dos instrumentos, arrumando o “buraco negro” (quarto ao lado do escritório que, desde o início do processo, só vem acumulando coisas jogadas uma por cima das outras), e terminamos o trabalho de forma bem produtiva.

domingo, 26 de julho de 2009

Em Garanhuns

No Barracantes de ontem tivemos apresentações de números de palhaços, com o grupo Tropa Trupe, Adelvane Néia e o Circo Grock (Nil e Gena), pois Fê e Marco tiveram que ir para o Festival de Inverno de Garanhuns para fazer uma apresentação do Fábulas.

Eu não estive presente ao Barracantes, pois fui com Fê para Garanhuns. A apresentação do Fábulas lá foi legal e teve bastante público. Depois da apresentação encontramos Vivi e Tine (que estavam no festival e assistiram a peça) fomos dar uma volta pela praça.

Vimos uma feira de artesanato, e Marco encontrou um stand do Abílio, luthier de Recife que fez praticamente todos os instrumentos que o grupo tem, e acabou comprando novos brinquedinhos para o grupo. Um gongo, uma queixada, um mineiro e uma caixa pequena, esta última uma paixão à primeira vista.

Na volta para Natal, eu, Marco e Fê (que dirigia o carro) conversamos sobre o processo do Capitão e os próximos passos a serem traçados.

Ah, lá em Garanhuns eu recebi uma reclamação de Marco por não estar com os relatórios em dia, e em minha defesa disse que essa semana que passou foi bem corrida para mim (oficina da Adelvane, contusão no tornozelo, Latão em Natal, etc.). Bom, o fato é que estou mesmo atrasada com os relatórios e vou, no decorrer dessa semana, colocá-los em dia, nas suas respectivas datas.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Latão!!!!


Dia muito especial no Barracão. Mais um dia muito especial no Barracão.

Recebemos a visita da Cia. do Latão, parceiros paulistanos, grande referência para o nosso trabalho, mestres, para fazermos um intercâmbio.

Ontem, após a apresentação do experimento deles no TCP, "Entre o Céu e a Terra", conversei um pouco com o Sérgio, assim como o Marco o fez com o Martin, diretor musical do Latão. Diante das ansiedades dos diretores musicais - em especial do Marco, o que não é nenhuma novidade... Rsrs - e do ponto comum mais do que óbvio entre os dois grupos, que é a música, decidimos partir do trabalho musical, e "ver no que dava".


Após a chegada deles no Barracão, ficamos ainda um tanto sem saber como começar, conversando um pouco aqui, um pouco acolá, até que optamos por começar com um aquecimento vocal mais convencional, conduzido pelo Maurício, e o Marco pegou abatuta a partir daí, pedindo para todos caminharem buscando uma pulsação comum. É impressionante como um exercício tão bobo pode ser tão difícil, quando se trabalha com um monte de gente que nunca trabalhou juntos antes, mesmo sendo, em boa parte, macaco velho no teatro.

Quando todos começaram a se entender melhor na caminhada, o Marco propôs o exercício das palmas que a Caroll trouxe ao grupo, em círculo, em que a palma é passada um a um, e acumulada a cada rodada (desculpem-me os que não conhecem, não vou tentar explicar aqui, porque é meio complicado de descrever com palavras). Ele trouxe variações, como a inserção do silêncio ao invés da palma conjunta, que foi muito legal.

Em seguida, trouxe o exercício que ele criou em que, após o estabelecimento de uma pulsação comum no caminhar - pelo espaço, novamente - todos batem palma juntos no 10, depois no 9, no 8, e assim por diante. Apesar das dificuldades, o grupão "Latão de Shakespeare" começava a tomar cara.


Depois foi a vez dele explorar o exercício, ainda sem nome, que ele tem desenvolvido neste processo, de espalhar os instrumentos pelo espaço e fazer os atores andarem entre eles, depois explorarem os sons, com a boca, de cada instrumento e, por fim, tocarem os instrumentos. Quando os instrumentos começaram a ser tocados, foi um caos! Aquele monte de gente tocando junto, todos famintos por fazer sons, alguns querendo conhecer instrumentos que nunca tinham tocado, todos loucos pra fazer uma jam juntos, foi engraçadíssimo. O Marco conduziu muito bem o controle entre o fazer e o escutar, e em algum tempo aquele monte de gente que acabara de se conhecer tava se entendendo muito bem, fazendo música juntos, muito bonito. Pra finalizar, o Marco puxou a música que o Márcio Marciano nos ensinou, aquela do "sol nascente quando sai, pela rua a passear...", numa ótima sacada que todos, ou quase todos, saberiam cantar. Os meninos do Latão ainda cantaram algumas outras músicas, antes de seguirmos em frente. Cantar é sempre bom...

O Sérgio e o Martin, então, propuseram um exercício que o Latão costuma trabalhar, chamado paisagem sonora. A partir de uma situação/estímulo, que no caso foi "a partida para o mar", os atores improvisam sons e vão criando fragmentos de situações, estímulos cênicos, sempre em relação ao outro. Obviamente, como não poderia deixar de ser em relação ao Latão, e que pra nós foi muito esclarecedor em relação a questionamentos que o processo do Capitão tem nos trazido, a busca por uma relação dialética é uma condição! A partir do que os atores propunham, o Sérgio comentava, o que ia enriquecendo imensamente o exercício. Eu, de fora, babava e aproveitava o que podia para tentar enxergar "pelos olhos do Sérgio"!


Então não resisti à minha atitude de voyeur que tinha determinado em me manter, e propus uma segunda rodada de paisagem sonora, desta vez oferecendo, como estímulo, uma edição de trechos do livro do André que descreviam a trupe. Uma puxada violenta e explícita de brasa para a nossa sardinha, mas confesso que sem culpa nenhuma. Afinal, não é qualquer um, nem todo dia que se tem a Cia. do Latão na sua sede!!!!

O exercício trouxe situações, personagens, imagens, sonoridades e outros elementos muito ricos! Surgiram algumas pérolas, como a menina que queria ir embora com a trupe (mas não indo); o artista velho aconselhando a novata a ter cuidado com os homens dali (mas assediando-a descaradamente); a dançarina do Rodrigo, dúbia só pela imagem proposta; o puxa-saco do prefeito da cidade que, com a recusa do pagamento de um cachê, inverte sua posição; a banguela que queria beijar a bailarina; a dondoca que não parava de repetir: "a arte popular me emociona!", e me fez lembrar de imediato da Dona Clarabela, da Farsa da Boa Preguiça; dentre vários outros.

O Sérgio fez algumas indicações muito interessantes, em especial que o outro é quem te modifica - ou, como diria o Sartre, o inferno são os outros - e a lembrança constante de que "a trupe estava passando", que trazia uma urgência às ações dos atores que geravam vida ao exercício.


Fizemos um intervalo, e logo após sentamos para bater um papo, fazer uma avaliação. Do papo, rapidamente surgiu o assunto do Capitão. Falamos um pouco sobre a obra, sobre como está o processo e, principalmente, por que prisma estamos tentando abordar o texto e o tema. Apesar da riqueza de tudo que fizemos nessa tarde, pra mim esse momento foi o mais precioso. O Sérgio apontou algumas questões muito reveladoras para nós, em especial a questão de como é um pensamento do mundo contemporâneo essa busca por uma trajetória individual, pensamento tão "Paulo Coelho", como ele bem ilustrou, assim como alertou ao risco de sermos moralistas às avessas, defendendo o coletivo cego. Lembrou como o Brecht encara a questão do coletivo de forma dialética, usando O Homem é um Homem como exemplo, em que o Galy Gay vira uma máquina de destruição cega ao ser incorporado pelo coletivo. Presentes...

Para finalizar o trabalho, fizemos um exercício sobre uma cena de Mãe Coragem, "A canção da grande capitulação", uma dinâmica que eles normalmente fazem em oficinas. Após lermos o texto e eles falarem um pouco sobre a obra e aquele momento da peça, nos ensinaram um arranjo de uma música com abertura de vozes em cima da frase "de quem se senta não vem revolta nenhuma", e depois fizemos uma brincadeira com o texto lido, em fragmentos, improvisadamente, enquanto a música era cantada.


Com a hora avançada e a reunião do Redemoinho Natal - que o Ney e o Sérgio participariam - prestes a começar, finalizamos o trabalho, para ajeitarmos as coisas, alguns comerem, etc. Daí a única ressalva à excelente tarde que tivemos: com a correria, e a nossa suposição falsa de que todos ficariam para a reunião do Redemoinho, acabamos não fazendo nem uma rodinha final, um agradecimento, nada...

Portanto, publicamente, deixo aqui nossa mais sincera gratidão aos queridos irmãos do Latão, por toda a semana que tivemos junto, e em especial por esta tarde, que tanto nos aproxima, quando tratamos de compartilhar também nossas práticas, e não apenas o discurso que, por mais importante e fascinante que seja, também é coberto de defesas, estetizações e idealizações que mais distanciam do que aproximam. Voltem logo e sempre!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Momentos do Capitão

O trabalho de hoje começou com um exercício que Marco propôs de dividir em momentos a história d’O Capitão e a Sereia, para que depois esses momentos pudessem ser traduzidos em sons.


Os meninos conseguiram dividir o livro em sete momentos: Menino Marinho e seus sonhos aquáticos; O êxodo do herói; Encontrando pares; Circulando com a trupe; Em busca de outros mares; O canto da sereia; e Gosto de marasmo – o retorno.


A partir dessa divisão do livro e de uma ordem estabelecida de quem era o primeiro, segundo, terceiro e quarto a contar os momentos, eles iniciaram a contação ainda sentados, procurando ser objetivos e sucintos na narração. Depois eles se levantaram e, enquanto faziam massagens uns nos outros, eu falava o título dos momentos, e eles começavam a contar.


Fizeram a contação obedecendo a sequência do livro e depois de modo aleatório. Marco ia conduzindo o exercício, e após algum tempo eles começaram a acrescentar elementos à contação, dizendo coisas que no texto de André não estavam escritas.


Eles contaram a história em pé, sentados e deitados. Nesse meio tempo, Fê chegou ao Barracão e interferiu um pouco no exercício, dando orientações para Camille. Depois ele pediu que os meninos encerrassem o exercício, pois queria trabalhar com os workshops que eles haviam criado em duplas. Fê havia pedido que os meninos contassem a página 9 do livro, sentados em bancos e procurando dar mais atenção a narração.


César e Renata apresentaram uma cena em que César era um apresentador de um programa policial de televisão e Renata a entrevistada, que não podia mostrar o seu rosto. Os meninos se utilizaram de sombra,  fazendo com que o público só enxergasse a silhueta da Rê.


Foi muito legal a imagem que eles criaram, e a forma que encontraram de contar a história, se utilizando de duas figuram que estamos acostumados a ver em televisão. Entretanto, a história ficou um pouco aquém da imagem, pois a imagem era mais interessante do que o que estava sendo contado e até a forma como eles contavam também sobressaía do que estava sendo dito. Além disso, eles focaram alguns elementos da história, como o fato do Marinho colecionar postais, que não deram conta do conteúdo da página como um todo.


Depois, foi a vez de Marco e Camille apresentarem sua cena. Eles usaram mais uma vez a cartolina com dois peixinhos desenhados e o público só podia ver a boca dos dois. Marco era um peixe mal humorado, e Tilis uma espécie de contadora de história. Eles contaram a página 8 do livro. Camille falava com as palavras do livro, descritivas e que causam dificuldade de compreensão ao espectador e Marco traduzia de forma objetiva o que ela dizia com tanto floreio.


Depois da apresentação, nós conversamos sobre a apresentação dos workshops e sobre um assunto que tem estado presente em quase todas as conversas do grupo: a forma de contar uma história, a prática do falar estando a vontade, de forma tranquila, do ator narrador. Também falamos sobre o exercício que Marco propôs de estímulos musicais. E, por último, os meninos fizeram uma reunião rápida sobre o planejamento de trabalho da outra semana, e Fê falou um pouco sobre questões que envolvem a temporada em São Paulo. E Arlindo, César e  Tilis ganharam narizes de palhaço que Fê trouxe de Sampa.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Clube das Bolinhas

20.07.09

Depois de chegar um pouco atrasado acompanhando Renata que resolvia questões de produção ligadas as apresentações dos parceiros do Latão que estão aqui essa semana, cheguei ao Barracão e encontrei o companheiro e diretor musical Danúbio já alongando-se em nosso tablado. Tablado mais do que batizado nesses últimos dias de trabalho e que agora tem recebido o suor e a ralação da mestra querida, Adelvane. Com Fernando em São Paulo ainda, depois de nossa breve aparição com o Fábulas no SESC Pompéia, com a ausência da Paulinha e com o pouco que sobrou de Camille e Cesar pós-oficina da Adê, começamos, finalmente, o trabalho com o Danúbio.

Não havíamos combinado previamente o que faríamos. Nos colocamos na idéia de trocarmos exercícios, jogos, formas de trocarmos sem grandes pretensões. Simplesmente brincarmos juntos. E assim aconteceu. Eis que nos aparece as bolinhas do Ernani. Ok, eu explico. Quando começamos um trabalho de aproximação no processo do Casamento, Ernani iniciou os exercícios usando umas bolinhas de tênis que o acompanham sempre em suas oficinas. É uma forma que ele usa de materializar a pulsação, à medida que marcamos o andamento “agarrando” as bolinhas no ar. É o pulso inteiramente palpável, literalmente. Muito simples e eficiente. De uma forma também muito simples, porém longe de ser simplória, Danúbio nos conduziu num caminho muito interessante e complementar em relação ao que estamos buscando nesse processo. É muito legal perceber como esse trabalho com as bolinhas nos coloca num envolvimento corporal e claramente visível entre a relação do tempo e do espaço na música. Mais uma evidente possibilidade forte que reforça o nosso fazer musical mais envolvido com o corpo. Como regra, tínhamos três possibilidades de criarmos células rítmicas que seriam repetidas coletivamente : usando o som dos pés no chão (traduzido na onomatopéia “TUM”), jogando a bolinha no chão (“TÊ”) e batendo palma (“TA”). Uma maneira muito legal de decupar, compartimentar e entender passo a passo a construção rítmica de uma célula musical gerada a partir de partes corporais. Um exemplo feliz de um resultado sonoro complexo a partir de um caminho simples. É, meu caro Danúbio, nesse tempo de escassez de interlocuções sobre esse assunto que tanto me inquieta e me fascina, não terei o menor pudor em “roubar” suas bolinhas do Ernani. Rsrsrs.

Depois de uma rápida água, retomamos o nosso exercício dos instrumentos no chão que descrevi no post “TEMPESTADE”, dias atrás. E não demorou nada pra que Danúbio se integrasse a nós nesse jogo. Esse exercício, feito hoje pela segunda vez, tem se mostrado muito rico nas possibilidades de caminhos apontados com as sonoridades que temos explorado. Cada momento é muito variado e distinto, o que mostra a importância de um registro de alguém que esteja externo ao jogo. Fernando e Paulinha fizeram muita falta hoje. Foi um jogo diferente, mas não menos curtido. Esse jogo tem despertado uma grande potência cênica na relação da música como agente criador e voz autônoma no processo. Foi bom refazer e perceber que não existe limites para usá-lo nesse momento. Será usado outras vezes. Inclusive amanhã, já que enquanto fazíamos me veio uma idéia que acho que pode ser útil na compreensão de uma dramaturgia mais palpável, pelo menos por enquanto, ou como um dos pontos de partida agora. Depois escreveremos aqui como isso se deu. Até lá.

sábado, 18 de julho de 2009

Barracantes

Marco e Fê viajaram para São Paulo, pois nesse sábado eles tiveram duas apresentações da peça Fábulas no SESC Pompéia. Devido a essa viagem não foi apresentado nenhum experimento do Capitão, mas contamos com a presença do grupo Facetas, Mutretas e Outras Histórias, que apresentou a peça Ida ao Teatro. Foi uma apresentação muito gostosa, em que o público se divertiu bastante. Ao final, tivemos uma conversa em que o grupo falou sobre o espetáculo e respondeu à perguntas do público.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O homi dos pulim invocado!!!

Já se foram muitos dias sem que eu conseguisse postar, tempo mais que suficiente para que muita informação deixe de ser registrada, para que muita coisa fique perdida na efemeridade da arte de representar. Que angustia!

Deus meu, que novela mexicana é essa!

Em fim. Tivemos Helder Vasconcelos, que é músico, bailarino e ator. Não foi preciso mais que uma semana para o cara não deixar osso sobre osso em nossos pobres esqueletos. Helder, mais conhecido como o cara dos pulinhos invocados, propôs uma pulsação comum para o coletivo, e que dentro dela poderíamos fazer o que quiséssemos enquanto atores criativos e improvisadores. Ele nos ofereceu vários caminhos para chegarmos até essa pulsação: a música elaborada, o uso de instrumentos, estímulos internos, entre outros.

Fato é que o negócio é bom mesmo. Só vendo para crer. Quem assistir verá. Impossível ficarmos intactos após sua passagem por nosso tablado. Ele nos deixou a pulsar como se a partir de então carregássemos um tambor ancestral dentro de nos que vive sempre a percutir um baião malicioso. Pum, pá cum pá pa pum, pá cum pá pa pum...

Helder, sempre menino, traz em sua sexta também um universo repleto de outras malícias, brincadeiras jocosas, rimas inusitadas, e todo o vigor da cultura popular.

Mas espere, não compre ainda.

Junto com o menino Helder ainda ganhei mais de 10GB de músicas das mais variadas, que vivo a escutar até hoje, sentido saudades de sua passagem furaculosa.

Heldin meu amigo saudades, do samba!

Mas espere, não compre ainda.

Helder ainda apresentou no sábado em nosso espaço, aberto a toda comunidade, no evento Barracantes, o espetáculo Espiral Brinquedo Meu. Foi lindo ver o Barracão abarrotado de gente suada, cantando felizes da vida, com o pequeno Helder no meio da roda a puxar loas e toadas de todos os tempos e lugares.

Deixo aqui uma de suas cantigas, por ele musicada.

Ai vento,
Tu que corres campos, varres mares
Faze voltar o tempo
Que deixei em outros lugares.

Fui...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Fotografando

O restante dos workshops das fotografias foram feitos hoje. César, Rê e Tili criaram imagens bem interessantes a partir das ilustrações do livro. Usaram bolas de gude, renda, panos, madeira, pedras, sinos, aquário, sacos plásticos, cajons, giz... 




Tiradas as fotos, os meninos partiram para o estudo das páginas 10 e 11, e depois criaram duas cenas, a partir do estímulo de ontem, da conversa sobre os efeitos visuais, etc, e Fernando pediu para que os grupos radicalizassem na proposta de usar apenas duas cadeiras e a narração.


Só deu tempo de apresentar a cena de Marco e Tili, pois os workshops das fotografias tomaram bastante tempo. A cena foi o seguinte: Camille sentou em uma cadeira com o livro do Capitão na mão e começou a ler a história como uma contadora querendo encantar o público, e Marco também sentado perto dela, traduzia de forma objetiva e rabugenta o que ela estava contando.


Na conversa sobre os exercícios, concluímos que o desafio foi cumprido: sem o uso de recursos visuais, a narrativa ficou em primeiro plano, e isso não acarretou em perda de interesse da cena, a solução cênica foi muito interessante deste jogo entre os atores. Sentimos falta apenas do narrador do Marco dar uma resumida na história ao final, para amarrar o sentido do texto. Fê, por fim, pediu que os meninos, para o próximo encontro, associassem os dois workshops, o dos peixinhos e o de hoje, e propôs que os meninos desenhassem uma sobrancelha brava no peixinho do Marco, e talvez um lacinho no “peixinho-contador” da Tilis. As meninas de Recife, que hoje se despediram de nós, ficaram curiosas para saber como será essa síntese das cenas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Páginas


Marco apresentou hoje o workshop das fotografias. As páginas escolhidas por ele foram a 22 e 23. Para realizar a foto de Marco, César se maquiou e fez a figura do Capitão Marinho usando um chapéu que Marco fez com a ajuda de Renata, e usando os adereços que foram trazidos por ele, que também confeccionou o barquinho.


O interessante desse exercício foi ver todo mundo ajudando, e se divertir com o Marco enchendo o saco de Cuca para bater a foto de modo que não ficasse escura, e do César que tremia a mão ao segurar o barquinho. Olha aê a foto que belezura!


Ao terminar a foto de Marco, os meninos aqueceram jogando bola, e depois, a pedido de Fê, eu sugeri uma brincadeira que se chama “Sim, Vamos!”. O jogo é assim: tudo que o condutor disser para os outros fazerem, eles tem que responder “Sim, vamos!” de modo bem animado e cumprir. Por exemplo, se o condutor diz “vamos ser todos árvores!”, todos devem dizer “Sim, vamos!” e fazê-lo. A brincadeira foi bem divertida, apesar de uns estarem mais animados do que outros.


Depois disso, os meninos sentaram e começaram o trabalho de decupar as páginas 8 e 9, em duplas. Após terminarem, eles criaram duas cenas. Marco e Tili tinham que contar a página 8 sem usar nenhum movimento, usando como único recurso a boca. Já César e Rê, podiam usar movimentos, mas não a fala.


Para a cena de César e Rê, o público teve que entrar dentro do escritório, e do lado de fora os dois mostraram, através da janela de vidro, bolinhas de sabão, a sereia indo e vindo em cima do case e Marinho pendurado no anzol, enquanto isso, uma música era escutada dentro do escritório dando o clima da cena, como e a plateia estivesse assistindo um aquário.


O público se divertiu bastante com a cena e com as arrumações dos meninos, como César tirando o anzol e a gente vendo, Rê soltando as bolinhas de sabão que não saíam direito, só a espuma... Marco até comentou de como é interessante que o público assista também aos “bastidores”.


Já na cena de Marco e Tili, eles desenharam dois peixinhos em um cartaz branco e falaram o texto através desses dois orifícios, assim o público só enxergava a boca dos dois. A imagem que os meninos trouxeram foi bem interessante, mas Fê queria que os meninos dessem mais atenção ao texto, a narrativa, o que acabou sendo um pouco negligenciado, pois a imagem foi mais forte do que o texto que estava sendo dito, principalmente porque os meninos estavam narrando com as mesmas palavras do texto, que causam pouco entendimento ao espectador por serem muito descritivas. Houve uma conversa longa sobre a questão do efeito visual vs. Entendimento da cena, o que serve ou não para o que se quer atingir, etc. Foi uma boa discussão, todos saíram instigados e com uma pulguinha atrás da orelha, em especial o Marco. Fê disse que esse exercício será refeito em seguida.

Pele seca, alma úmida.

Uma das atividades realizadas no dia de ontem foi a análise em duplas (Camille e Marco/ César e eu) das páginas 6 e 7 do livro O Capitão e a sereia.. Segue alguns pontos levantados da nossa dupla a respeito da ilustração e o do texto:
*Toda a figura é composta sob uma textura que lembra uma parede. E que remete a um ambiente seco, o sertão.
*Paisagem: Cactos verdes com espinhos, pedras (algumas lembram pedras de arrecifes e outras são texturizadas).
*Tudo o mais que ocupa a ilustração diz respeito a Marinho e sua intervenção no espaço. Tudo que ele traz parece fruto de outro lugar, seja físico ou proveniente da sua imaginação.
*Discordando da paisagem sertaneja, Marinho veste roupa de capitão, segura uma vara de pescar apoiada a um barquinho, além da presença de um aquário com água e um peixinho.
*Além da estranheza das vestimentas de Marinho, o que realmente subverte a possibilidade do real são os seguintes elementos: O chapéu cheio de água, a sombra de água que o acompanha e um terceiro que gerou dúvidas se é ou não da vara, é o anzol com uma pequena bóia que aparece no canto superior a esquerda da página 6. Estes dois ou três elementos nos levam a concluir que o verdadeiro entendimento da ilustração só se faz no campo da metáfora ou da abstração, onde o próprio texto confirma essa chave, essa forma de olhar. “Marinho sempre navegou em sua imaginação marítima por oceanos nunca antes navegados, muito além das terras onde vivia”.
*Assim como a imagem, o texto também é cheio de metáforas: “Olhos azuis como o horizonte que une céu e mar”; “Coração cercado de águas por todos os lados” ; ” Sentir o corpo molhado pelos encantos aquáticos”.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dia de imagem e som

Temos gente nova no Barracão! Chegou à sede o trio Lori, Tini e Vivi, três queridas de Recife que estão iniciando um grupo de teatro e vieram acompanhar um pouco o trabalho dos Clowns nessa semana.


Marco iniciou o trabalho musical colocando vários instrumentos no chão com a ajuda dos meninos. Depois, eles começaram a andar pelo espaço, observando os instrumentos, buscando uma pulsação, percebendo o espaço e olhando no olho do outro. Aos poucos, Marco ia fazendo comandos e eles buscaram fazer os sons dos instrumentos internamente e depois externamente, com a boca. Fizeram também um pouco de contato superfície, até chegar ao ponto de realmente tocar os instrumentos, procurando sempre manter o jogo e a pulsação.


Surgiram tanto imagens interessantes como paisagens sonoras! Eu fiz anotações de algumas e depois, durante uma conversa com todos, Fê pediu que elencássemos as coisas mais interessantes que surgiram, dando nome a elas:


- Mangai: catando instrumentos

- Acampamento: junção dos instrumentos

- Homem chocalho: chocalhos por todo o corpo

- Remada da sanfona: o ir e vir das ondas, da insegurança tocando uma sanfona, sem sair muito do lugar

- Duelo de chocalhos: luta entre boi e homem, entre dois homens com chocalhos

- Pé no vazio: de pé em cima do cajon, um pé para fora, instabilidade


As anotações a seguir são de coisas que eu observei.

* Marco e César tocavam sinos, Tilis estava no cajon e Rê na sanfona, isso me lembrou muito a paisagem da caatinga. Depois entraram sino, chocalho  e coquinho, e aí já me remeteu a imagem de uma caminhada contínua pelo sertão.

* Em um momento durante o jogo, Marco começou a dizer texto do Capitão, e César criou um andar interessante com os chocalhos nos pés; Eles começaram a cantar a música tema do Capitão, depois Marco, Rê e Tili seguraram o efeito de mar e perseguiram César, que subiu no cajon, parecendo fugir do canto da sereia.


Depois da conversa sobre o exercício, Fê propôs que, em duplas, os meninos criassem duas cenas, utilizando as coisas que surgiram no exercício de forma que os quatro estivessem em cena.


Na primeira cena, eles faziam crianças, que entraram brincando de pega-pega, depois começam a brincar de adoleta cantando a música Fulô, e o primeiro que saiu da brincadeira (Marco) passou a ser o cabra-cega. Durante a brincadeira os meninos o chamavam e ele tentava pegá-los. César, Rê e Tili usaram o instrumento do mar também. A cena se desenvolveu para o Marinho começando a ficar com um pouco de medo, até ser abandonado pelos sons e ficar sozinho.


Na segunda cena, todos entraram com chocalhos, com César cantando um aboiado e tocando sanfona, tangendo o gado, até que os três entraram na roda que já estava formada pelos cajons, deixaram os sinos caírem no chão, e pegaram o efeito de mar. César subiu no cajon e os meninos passaram a cantar, falar, atormentando ele.


A atividade seguinte foi ler as páginas 6 e 7 do livro do Capitão e esmiuçar todo tipo de informação que as imagens e o texto oferecessem. As duplas César e Rê, Tili e Marco ficaram de postar no blog  as informações discutidas. Após a leitura, Fê pediu que cada um contasse as páginas 6 e 7 do livro; Marco descreveu as páginas com mais floreio, César narrou de forma mais objetiva, Rê narrou como professora da disciplina “André Neves II” e Tili como a tia do pré-infantil. Depois, Fê pediu que Marco sentasse em uma cadeira e desse uma palestra como a Dona Gertrudes, professora PhD em André Neves.


O dia hoje foi muito produtivo e divertido, a condução de Marco e a de Fernando encontraram um diálogo muito legal e, apesar das cenas criadas terem perdido a energia do exercício, o legal foi ver os meninos se doando para o trabalho, sem ter medo de puxar os seus tapetes.

Tempestade

É...parece mesmo que a ressaca que foi anunciada no início de nosso experimento sábado me pegou de jeito. Esse corpinho que Deus me deu resistiu bravamente até aqui. Mas agora, pediu cama. A cabeça é um peso só. Senti a voz indo, devagarzinho a cada vez que tentava falar algo durante nosso bate-papo depois de apresentarmos no Barracantes. É uma espécie de trégua clamada pela carcaça que me sustenta. Tá bom, vai. Não chega a ser uma carcaaaaça. Sei que está bem recheada de tecidus foforium. Mas é que não consigo dosar a minha energia diante de um processo de trabalho. Sou do tipo que tem febres emocionais e algo mais. Não tem como ser diferente depois de uma longa pausa de três anos sem montar. A cabeça é exigida e cobrada de mim o tempo todo. Mesmo quando não quero. Trabalha em sonhos. “Larga d’eu, chulé!” Tsc tsc tsc, pobre homem.

Bom, mas depois de alguns dias sem escrever por aqui, tentarei atualizar minhas idéias em palavras novas, mesmo descrevendo coisas passadas e algumas, até já relatadas. Após insistentes tentativas fracassadas de receber os cajons prontos, com mais de uma semana de atraso, e criando quase uma lenda sobre isso, finalmente eles deram o ar da graça. Senti claramente o constrangimento e as desculpas do músico e luthier que os fez, sugerindo que ficássemos com esses e que ele faria outros mais bem acabados e que até o agradassem mais. Assim, a medida que formos trabalhando, ele vai repondo com novos. Confesso que isso o redimiu em parte pela demora na entrega. Pense numa coisa que me tira do sério é esperar por algo ou alguém. Ô raiva bixiga!! Ufa! Calma, não se estresse... Mas ainda não foi nesse dia que conseguimos brincar com eles. Até os efeitos de mar que o Helder trouxe, não haviam sido manipulados ainda.

No dia seguinte, primeiro que trabalharia a música com o grupo nessa nova etapa pós convidados, sem uma preocupação com resultados, mas sim com o levantamento de idéias e estímulos sonoros, começamos os trabalhos. Há muito tempo tenho pensado num exercício que pudéssemos explorar variações timbrísticas isoladamente para começarmos a brincar com esses instrumentos novos, percebendo suas possibilidades e seus sons característicos. Propus então uma roda delimitada por quatro grupos de timbres diferentes: os cajons, os shakers (chocalho e caxixis), os Bells (sino, metalofone e pin) e os efeitos de mar. Isso dava um total de doze estações. Por isso denominei esse exercício como RELÓGIO. César depois de ter visto o desenho q fiz intercalando o instrumentos nas doze estações, disse que lembrava também uma Rosa dos Ventos. É verdade. Qualquer coisa nesse momento tem sido inspiração pra esse universo que estamos mergulhados. Ó, viram só? “Mergulhados”. Uma hora nos acostumamos, ou cansamos dessa brincadeira. Por enquanto, é experimentar cada vez mais. A regra era que sempre teria alguém no centro com um texto, canção ou movimento, livremente enquanto os outros três que estivessem nas estações estariam tocando os instrumentos por seção timbrística. Por exemplo: César cantando uma canção no centro enquanto eu, Renata e Camille manipulávamos o mar, simultaneamente.

Tenho me inquietado muito com as possibilidades de potencialização musical de instrumentos dialogando com textos, canções e ou movimentos. Esse exercício foi muito legal pra perceber isso na prática. Como se dá a relação do som periférico (os instrumentos tocados nas estações) com o som de quem está em foco (corpo em movimento, voz e texto, voz e canção). Acredito que esse encontro por si só já gera uma música cênica ou uma cena musical, independente do sentido prévio. O objetivo inicial era simplesmente percebermos isso. Mas é óbvio que no decorrer do exercício surgem lampejos de idéias, estímulos, fragmentos de cena em potencial. Aí sim, temos que fazer as relações que nos interessam. É quando chega a hora das escolhas. O que não é o caso. Não é ainda. Ficou muito claro na avaliação que fizemos da importância que tem esse trabalho de livre experimentação com os instrumentos. E a maneira que tem se dado o diálogo da minha direção musical com o que os atores tem proposto. Um exemplo disso foi um momento em que Renata, quando estava com o Metalofone na periferia das estações, sugeriu, enquanto explorava (gosto da palavra “brincar”), ou melhor, enquanto brincava (agora sim) uma melodia simples, mas expressiva. Quando saí do centro e assumi aquele instrumento, retomei aquela melodia e a transformei com um olhar inevitavelmente técnico, o que faz parte dessa minha função musical. Tenho buscado cada vez mais essa relação horizontal e de consciência compartilhada do processo criativo através da música. Temos encontrado juntos esse caminho. Os meninos tem me dado muito retorno sobre o que temos levantado e isso tem revelado possibilidades muito ricas nessa minha pesquisa, que agora, mais do que nunca, tem sido cada vez mais de todos nós.

E assim, veio a seguir um workshop que havia pedido para todos. Criarmos uma melodia em cima da letra proposta por Rafael, a canção SEJA FIRME CAPITÃO, postada aqui por ele na semana em que esteve conosco. Como ponto de partida, indiquei que criássemos uma melodia que tivesse uma estrutura rítmica que quebrasse com a proposta pela letra. Teríamos também a idéia, presente no cavalo-marinho e em outras manifestações populares em que o canto é respondido por um coro após a frase cantada pelo toadeiro (solista). E com essa incumbência de cumprir tal tarefa solicitada por mim mesmo, tem início a minha peleja alucinante nos momentos de criação. Escolhi compor no violão. Essa escolha normalmente se dá quando quero compor algo menos rebuscado, que possa ser executado mais facilmente por qualquer um. É que como tenho limitações mais radicais nesse instrumento, isso aproxima mais do resultado que queria para esse exercício. Aprendi esse recurso quando compunha jingles publicitários, que tem esse caráter de música fácil e pegajosa para vender mais facilmente também. Os compunha quase sempre no violão. O piano, meu instrumento mãe, me coloca com outra postura no instante da composição. Por enquanto tenho preferido o violão e a minha técnica “pata de caranguejo”, usando horrivelmente o polegar e o indicador para tocar as cordas. E vieram as imagens. Quase sempre é assim, a música vem recheada de imagens que praticamente conduzem a composição. E como estou (estamos) muito contaminado, de forma positiva, com todas as influências vividas até aqui, assim surgiu o baião, o compasso 12/8, os cajons, o cavalo-marinho, a dança, a roda, a toada, o desafio presente nas emboladas, o texto do André, as músicas que trabalhamos no início de tudo, o Márcio, o Lima e o recém Helder com seu Espiral de brincadeiras. Na estrofe que diz: “Acredite na barcaça, navegando com bravura, quando a dança descompassa, resistir é aventura”, consegui encontrar uma solução para a idéia dos movimentos das ondas do mar que há muito tempo queria mas não sabia como realizar. Na composição, proponho que cada frase seja dita em cânone pelos atores, onde elas só se encontram no final (...resistir é aventura). A melodia é a mesma para todas as frases, variando apenas a harmonia. Nesse instante me veio a idéia de usar pedaços de ferros com afinações em lá, fá, ré e mi. Notas que dão o movimento harmônico para esse momento no canto, e que poderíamos cantar a melodia, dançando e batendo/tocando esses ferros em momentos precisos. E lá estava eu no dia seguinte com Rafael Teles, nosso produtor, na Compal, uma empresa que trabalha com ferros de todo o tipo. O gentil vendedor que nos atendeu era músico e nos deixou bem à vontade para encontrarmos o que queríamos. Vi que ele achou interessante aquela proposta, de um camarada (eu) com um violão, batendo em ferros de todo jeito. Aos poucos foram surgindo outros funcionários pra entender e ajudar também, meio que timidamente, mas foi muito legal isso. Logo deu o intervalo pro almoço e percebemos que não será tão fácil encontrarmos o que estou querendo. Fiquei de voltar lá. E vou. Na sequência, lá estava eu no Armazém Pará diante de canos PVC, tirando chinela pra bater neles, tirando som como podia. Me senti uma criança descobrindo um mundo novo. Fui para as seções de escovas de limpeza para achar uma que combinasse com um tipo de lixa, encontrando um som interessante. A vendedora que me atendeu disse: “Você é músico? Os artistas são todos malucos, né? Er...tô brincando, viu?” Achei ótimo! Sinto-me careta demais até. É bom experimentar a loucura de vez em quando. Pelo menos essa, assim. Resolvido o que comprar, era hora de experimentar na prática o que estava tão vivo no campo das idéias. Foi difícil segurar só pra mim, sem ligar pra alguém pra dizer do que havia pensado, de como queria fazer. Tenho tentado encontrar o equilíbrio naquilo que deve e que pode ser dito diante da surpresa, ou até da expectativa criada. Tenho guardado mais comigo certas coisas. Engraçado isso num processo tão “arreganhado”, como disse Fernando. Tem hora pra tudo.

Cada um apresentou sua melodia. Muito timidamente e ainda com uma preocupação com o acabamento desnecessária, os resultados já apontam caminhos nessa dinâmica muito bacana. Precisamos repetir isso mais vezes. Na minha proposta musical para essa letra, queria algo que nos colocasse em movimento. Algo que fosse mais do que simplesmente o conforto do tocar ou cantar. Precisamos associar na prática de processo de descobertas o que já venho explorando com mais freqüência nas oficinas. A idéia dos exercícios polifônicos trazidos pelo Ernani e que tem tanta eficiência no resultado de treinamento musical. Fiquei muito feliz com as possibilidades de jogo que esse exercício nos trouxe. Certamente será revisitado outras vezes.

sábado, 11 de julho de 2009

Coisas

Bom, como Fernando já fez o meu trabalho de descrever o dia de hoje, e de maneira bem mais interessante, vou falar apenas de minhas percepções sobre a apresentação de hoje.

Cada vez me envolvo mais com esse processo. Hoje fiquei até nervosa, e não me pergunte o porquê, pois não saberia responder. A apresentação foi muito bonita, porém tiveram alguns momentos que foram menos curtidos, e acho isso porque tenho a referência dos ensaios que assisti. Ao mesmo tempo, os meninos na cena dos pescadores brincaram e contaram a história de modo que equilibraram as duas coisas, conseguimos rir e entender o que estava sendo contado.

Já na narração das meninas, por causa da imagem das lamparinas e do efeito do mar, tive dificuldade de me concentrar na história, até porque estava preocupada com aqueles lampiões acessos, com medo de que escorregassem. E a música do final, tocada pelos meninos foi bem mais curtida por eles. É impressionante ver como essa melodia é encantadora, o quanto ela emociona o as pessoas.

Ana Maria Braga

No debate ao final do Barracantes de hoje o Danúbio, do grupo Pau e Lata, observou com muita perspicácia que o título que demos ao experimento - Ressaca - o fez lembrar que uma ressaca pode ser muito boa, como dizem ser quando se bebe, por exemplo, um excelente uísque.

Nossos puros maltes 18 anos respondem pelos nomes de Márcio Marciano, João Lima e Helder Vasconcelos, além dos demais colaboradores que passaram - e estão passando - pelo Barracão neste primeiro mês de processo que se finda. Degustamos o melhor que esses profissionais, tão parecidos na qualidade, seriedade e ética de trabalho, mas tão distantes, em alguns aspectos até opostos, no pensamento e nos procedimentos de trabalho, deixaram para nós nessas três semanas de imersões, de mergulhos, e mergulhões.

Durante a semana de trabalho, me deparei pela primeira vez com a "responsabilidade" de "dirigir" um experimento, para ser apresentado no Barracantes. As aspas se dão porque, em primeiro lugar, não pesou nenhum tipo de responsabilidade: esse formato arreganhado de processo que estamos experimentando nos coloca numa posição de extremo conforto - na melhor acepção da palavra - e tranquilidade em ser absolutamente honesto com o material que criamos, sem preocupação com a espetacularidade do resultado que, apesar de tudo, está lá! Pero que las hay, las hay!!! Em segundo lugar, porque "dirigir" é um termo controverso em processo tão coletivo e com tamanho grau de contribuição de todo o elenco, do Marco como diretor musical, e de todos os outros colaboradores...

Passei a semana pensando em como encontrar uma forma de organizar uma parte do material que temos para levar ao público de forma a tentar organizar um discurso - cênico, não verbal - para começar a responder a uma das perguntas do debate no último sábado: "Como esse trabalho com o Helder vai ser usado no espetáculo?". Ampliei a questão para pensar como todas essa influências serão utilizadas no espetáculo, e aproveitei o luxo de ter um espaço de experimentação, com público e tudo, durante todo o processo, para testar costuras, encaixes, diálogos entre soluções, entre materiais, abordagens mais "encantatórias", outras provocadoras, geradoras de distanciamentos, etc.

Então, usei um pouco de cada ingrediente que nossos parceiros deixaram, e testei uma receita nova: uma xícara de chá de dialética marciana, duas colheres de sopa de neutralidade e estado de "ser" limísticas, pitadas de pulsação do baião vasconcélica à gosto (confesso que usamos em excesso, mas ficou uma delícia) e, por fim, muita energia do "jeito de fazer" dos brincantes do Cavalo Marinho polvilhada por cima. Deu certo! Deu jogo! Deu samba! No samba! Aí dentro!

Até a luz do Espiral foi praticamente toda usada, sem mexer. Só quatro refletores reafinados. Uma tarde muito baba pro Ronaldo.

Tivemos um público de quase quarenta pessoas. Apesar de não estarmos muito preocupados com a quantidade de pessoas que vão acompanhar o processo, não posso negar que fiquei muito feliz. Senti falta dos três mosqueteiros, Sávio e as duas meninas - perdoem-me, não lembro o nome de vocês! - que desde o princípio vêm mantendo a regularidade. Falta na caderneta! Semana que vem mandaremos um bilhete para os pais!

Além de quantidade, muita qualidade na plateia. Alguns que nunca tinham vindo, outros que retornaram. Três figuras importantes do teatro nordestino: Lindolfo Amaral, Luiz Carlos Vasconcelos e Eleonora Montenegro, que estão de passagem pela cidade para uma curadoria. Vieram acompanhados da Ivonete Albano, grande artista potiguar, e com quem tive alguns "desentendimentos virtuais" recentemente, o que fez dessa vinda dela ainda mais bacana. E, em especial, alguns moradores da Amâncio Ramalho, nossa rua, que finalmente vieram! Em todos os Barracantes passamos pelas casas levando convites especialmente feitos para eles, chamando para virem, mas até agora ninguém tinha vindo. Neste sábado, alguns não só vieram, como participaram do debate, e prometeram voltar, super empolgados!

Foi muito bom ver o Lindolfo na plateia assistindo um experimento em roda, ele que veio trabalhar conosco ano passado e tanto falou na roda, configuração cênica que tanto gosta e pesquisa. O Luiz Carlos, que viria para o Oficinão trabalhar conosco e acabou não podendo vir por falta de datas, também fez observações muito preciosas.

O debate foi muito rico, com muitas contribuições interessantes. Acho que, aos poucos, nós e o público estamos começando a entender esse processo, entender esses Barracantes. É muito legal comentários como o do Abel, do Tropa Trupe, fazendo associações entre um experimento e outro, ou o Danúbio e a Eleonora trazendo suas experiências com a música para o nosso trabalho.

A única pena é que, por conta de uma série de compromissos, o próximo Barracantes com experimento do Capitão vai ser daqui a um mês. Nesse meio tempo, teremos eventos todos os sábados (à exceção do dia 1/8, que a Adelvane apresentará seu espetáculo A-MA-LA na Casa da Ribeira). O processo de montagem continua, mas demoraremos um pouco para voltar a ter essa troca cada vez mais saborosa com o público.

Experimento 93.447

Fotos: Maurício Rêgo





sexta-feira, 10 de julho de 2009

Estímulo

Marco trouxe para o ensaio três vídeos: A Pedra do Reino, Hoje é Dia de Maria e Moby Dick. Nós assistimos algumas cenas por ele selecionadas que traziam alguns estímulos sonoros e imagéticos.

Em seguida, os meninos apresentaram as melodias criadas a partir da letra que Rafael Martins havia criado, e Marco apresentou a que ele havia criado. Aos poucos, os quatro trabalharam nessa melodia, jogando com movimentos e com instrumentos. Marco fala disso com mais propriedade no post dele chamado Tempestade.

Depois, eles começaram o ensaio da orquestra de músicos que, ao invés de tocar, cantam os sons de seus instrumentos. Treinaram também o tema de Marinho e fizeram ajustes para o exercício será apresentado amanhã no barracantes.

Ao final, conversamos sobre o exercício que Marco propôs de criar a melodia e Fê sugeriu que Marco desenvolvesse arranjos a partir das melodias que os meninos criaram e que buscasse dinâmicas em que os meninos pudessem ser cada vez mais participativos. Marco pediu que os meninos pesquisassem algum tipo de percussão que utilizem água.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Exercícios

A tarde começou com Sávio de Luna trazendo mais um pouquinho de sua contribuição através do contact improvisation.

Trabalhamos movimentações com o corpo no chão, pensando nas articulações e em um corpo “sem ossos”. A seguir, fizemos movimentos a partir do quadril, deixando que ele fosse o condutor, exercitamos rolamentos e Sávio mostrou algumas movimentações em duplas, e fizemos alguns movimentos acrobáticos.

Mesmo tendo participado de poucos encontros, tenho gostado cada vez mais desses momentos de contact, pois isso tem me possibilitado uma maior compreensão do meu corpo. E ao observar os meninos trabalharem, percebo que aos poucos eles tem criado uma relação corporal maior entre si, e espero que isso só venha a crescer porque para mim é claro quando dois corpos se escutam, se permitem, e acho que isso pode e deve refletir no palco, pois faz parte do jogo.

Os meninos ensaiaram a toada Fulô – não sei como ela se chama, então a chamo assim -, brincaram um pouco com a letra da música, e depois Fê pediu a Camille e César que trocassem de instrumentos, ele pegou a zabumba e ela o triângulo. Os atores treinaram um pouco como tocar os instrumentos e depois, ao invés de tocarem os instrumentos, eles cantaram apenas os sons de cada instrumento.

Depois, Fê propôs um exercício em que os atores entravam como uma orquestra sinfônica, davam uma volta circular olhando o público, mostravam os instrumentos e depois iam para o meio da roda. Marco, como maestro, pedia com gestos que os “músicos” afinassem os instrumentos, depois eles começavam, ao invés de tocar os instrumentos, a cantar os seus sons. Em seguida, Fê colocou banquinhos no centro da roda, e pediu que os atores sentassem. Depois eles levantaram e criaram movimentações a partir dos sons que cantavam e, já sentados, encontraram uma equivalência do movimento em pé.

Após o exercício, eles começaram a ensaiar o workshop da procissão. Colocaram os chapéus, os bonecos de dedo, e cantaram músicas religiosas da igreja católica. Marco trouxe uma sugestão de música nova, A Barca, que tem a ver com mar e pescador. Os adereços dos meninos são muito bonitos, porém não estão tão firmes, assim enquanto eles cantavam, tudo os chapéus, os bonecos iam caindo.

Isso me lembrou um pouco um espetáculo do grupo, O casamento, em que as coisas também desmoronam. Porém, no ensaio, ao ver a cabeça dos bonecos caindo (sem ser de propósito) me remeteu a pessoas perdendo as cabeças, sendo manipuladas pelo fanatismo religioso, e também fiquei pensando o quanto aquela imagem é forte, talvez porque eu seja “católica”, e como ela suscitou em mim, questões que ao meu ver são importantes e que merecem atenção.

Ao terminarem o ensaio, seguiu-se uma pausa rápida para repor energia e ir ao banheiro. Na volta, os meninos conversaram sobre o que experimentaram hoje e sobre as amarrações para o barracantes no sábado. E em seguida, fizeram um ensaio dos exercícios, e das idéias que tinham tido, também dividiram entre os atores a história que irão contar.

Ah, depois que Tililim saiu para fazer sua prova de inglês, os meninos ainda ficaram conversando sobre questões pessoais do grupo. E para mim foi importante estar presente nessa conversa – apesar de não ter falado nada – e ver que o grupo se preocupa não só com o trabalho, mas com cada pessoa que compõe o grupo, e também com as pessoas queridas que estão ao redor.

Bom, foi quase isso... pois sempre acontecem coisas que por escolha, ou esquecimento, acabo não relatando aqui.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Fulô

O grupo começou o trabalho com uma reunião com Carlos Fialho, do Jovens Escribas, sobre um projeto em comum entre os dois coletivos que estão elaborando. Assim que acabou a reunião, Marco iniciou um trabalho musical com os meninos. Primeiro ensaiaram o tema do capitão, depois fizeram um exercício que Marco propôs.

Ele arrumou o espaço com alguns instrumentos de quatro timbres diferentes, formando um relógio na sala. Daí os meninos fizeram um aquecimento andando pelo tablado, percebendo a pulsação coletiva e individual, procurando manter o espaço equilibrado, olhando no olho do outro, entre outros direcionamentos que Marco ia falando enquanto também fazia. Ainda nesse exercício, fizeram um jogo de palmas, contando de 9 a 1, procurando manter a pulsação e a contagem, enquanto Fê pedia para os atores pararem em alguns momentos, e depois continuarem.

Fotos: Maurício Rêgo

Seguindo, três atores sentaram nos cajons, e um ficou no meio da roda. O exercício era explorar os instrumentos, enquanto a pessoa que estava no meio também explorava movimentos, texto, canção, o que quisesse. Aos poucos quem estava no meio, usando um passo do Mergulhão, chamava o outro para o meio, e ia para o instrumento. Todos passaram pelo meio da roda e por todos os instrumentos.

Fê interferiu no exercício do César, e depois da Renata, fazendo algumas intervenções. Depois, pediu que Marco lembrasse da história do Velho do Mar – que não é O Velho e o Mar – apenas em pensamento relembrando a figura do pescador que havia criado em um workshop junto com César. Depois, César também entrou e aos poucos eles foram criando relação. Enquanto isso, Tililim, Rê e Fê estavam tocando instrumentos. Primeiro Marco começou a contar a história e quando ele parou César continuou, como pescadores. Depois apenas como narrador.


Depois, as meninas entraram na roda, e os meninos saíram e assumiram os instrumentos. Enquanto os instrumentos tinham um batida forte, as meninas jogavam com movimentos no meio da roda, depois uma delas batia com os pés no chão, e começava a contar a história, procurando apenas narrá-la, sem teatralizar. Após algumas trocas, elas contaram a história ao mesmo tempo, sendo que cada uma voltada para uma parte do público.

Em outro exercício proposto por Marco, os meninos cantavam uma toada, que aprendemos na semana com Helder, e um deles era o capitão, e o restante o coro. Cada um, na sua vez, era o capitão. Tudo o que o capitão fazia de movimentações, o coro repetia. Surgiram movimentos bem interessantes.


Ao terminar o exercício, Marco pediu que os meninos em casa pensassem numa melodia para a letra de música que Rafael Martins criou.

Fê colocou alguns instrumentos no centro da roda. César pegou a sanfona, Camille a zabumba, Renata o coquinho, e Marco o triângulo. Eles tocaram os instrumentos, cantando a toada “Plantei jerimum...”, procurando ajustar a melodia, e depois Fê pediu que Marco e César trocassem de instrumentos. Os meninos brincaram um pouco ao cantar. Fernando pediu que eles registrassem um pouco do jogo que havia surgido entre eles.


Por fim, sentamos no chão e conversamos sobre como foi o dia. E a música ficou na minha cabeça...
“Plantei jerimum estendeu não butô (2x)
Viero as menina e apanharo a fulô (2x)
Fulô, Fulô
Viero as menina e apanharo a fulô (2x)”

terça-feira, 7 de julho de 2009

Portas Abertas

Após três semanas de muita agitação, informação e trabalho no barracão, hoje senti uma sensação estranha - mas não ruim - ao chegar à sede e perceber ela tão silenciosa.

Como Fê disse, sábado a gente fechou o primeiro ciclo de trabalho, pois depois de algumas semanas trabalhando com pessoas diferentes, agora o grupo começa a caminhar “sozinho”, embora com portas abertas.

A partir disso conversamos sobre as sensações desse primeiro momento do processo e as contribuições que ficaram desses parceiros. Falamos um pouco sobre o desenvolvimento do trabalho do ator e a busca pela forma de narrar, que gere um distanciamento mesmo mantendo a poesia, tendo consciência de um discurso cênico que trabalhe esse olhar dialético sobre a criação, que tem sido algo que o grupo deseja se apropriar.

Falamos também do ator em função do teatro, das percepções de Gabriela com relação à cenografia nesse momento, das fichas que caíram após algumas oficinas, da relação de respeito entre o grupo e parceiros, da forma como o grupo se utilizará das informações, do que foi degustado nessas últimas semanas, e da saudade que ficou de bons momentos.

Seguindo, Fê direcionou o trabalho das próximas semanas. Pediu que os meninos fizessem um workshop a partir de algumas ilustrações do livro, assim cada um escolheu uma página, e irá criar fotografias a partir delas. Também falou para Marco pensar em uma pulsação marcada na cena da pescaria criada durante a semana que passou.

Organizada a semana, os meninos fizeram um aquecimento em círculo usando um jogo de palavras, um ator dizia uma palavra e o seguinte falava outra correlata, mantendo a pulsação com o estalar dos dedos. Depois, Fê fez outros direcionamentos dentro do mesmo jogo, pediu que falassem as palavras mantendo uma movimentação, girando em círculo, se movimentando pelo espaço mantendo a pulsação, depois acrescentou uma palma ao ritmo.

Após o jogo, os meninos iam trabalhar no workshop do Marco e da Gabi, que tem relação com a ilustração da página 13 do livro do Capitão. Entretanto, isso teve que ficar para amanhã, pois houve algumas interrupções durante o dia para resolver arte gráfica e receber os cajons, novos brinquedinhos para a diversão musical do grupo.

Os brinquedinhos novos...