quinta-feira, 2 de julho de 2009
Amaciando a madeira
Pobres batatas. Quais? Das pernas, das minhas, das nossas. Trabalhando já há três dias com o Mestre Helder, o nosso Capitão nessa "empeleita" rumo aos caminhos e ao universo do Cavalo-Marinho, eis que percebo que nasce uma batata. A da perna. Não sabia que tinha uma, digo, duas.
Acho que depois de um ano e meio de uso no nosso espaço, finalmente agora, nessa semana de trabalho, o chão, o tablado, área de trabalho foi amaciado. Na base do pisão, é claro. E o pulso ainda pulsa. E também foi a semana de estreia do nosso som. E que som! Havíamos comprado pós Fábulas na Escola e só agora, depois de termos ficado na mão com o som que usávamos pra tudo e que, aparentemente queimou algo, deu o ar, ou melhor, o som das graças. Graves, médios e agudos na medida certa. Quem for esse sábado para ver o ESPIRAL BRINQUEDO MEU, espetáculo do Helder e que será a atração do Barracantes do dia 4 de julho, ouvirá essa beleza funcionando. Bom, eu acho lindo!!
Das terras do Cavalo-Marinho e do Maracatu, vieram na bagagem do incansável Helder os nossos efeitos de mar que compramos à distância, do luthier Abílio, onde já tivemos o prazer de conhecer seus instrumentos e adiquirir alguns deles desde o primeiro contato musical, na montagem do Muito Barulho, em 2003. Hoje a tarde, com dois dias de atraso, finalmente receberemos os nossos cajons. Não vejo a hora de começarmos a brincar com eles.
Dentre as tantas novidades em meio a esse processo, continuo a levar "caldos" e mais "caldos" a cada dia. Nunca havia experimentado a verdadeira sensação do resultdo de um trabalho que se baseia na exaustão, como estamos vivenciando nesta semana de trabalho. Trabalhar com base na pulsação ininterrupta, resignifica muito pra mim esse caminho de construção energética. Fichas começam a cair. Peças a se encaixar. Tem sido uma rica experiência musical ligada diretamente e de forma mais palpável ao corpo. É onde se dá o privilégio dos encontros com profissionais tão importantes e que já começam a escrever a história dessa história que começamos a contar.
Falando em escrever, recebemos o nosso dramaturgo e bagaceiro Rafael Martins, que também já deu seu ar por aqui. Pobre homem, pouco sono e muita coisa a processar. Ele tem estado no seu cantinho, de longe, a observar. E a escrever. É só o começo.
Bem-vindo Rafa, Helder e João Lima que deixou saudades aqui, mas finalmente apareceu por essas bandas virtuais e que tanto nos aproxima.
E vamo que vamo!!
Mais um nesta rica tripulação
E assim foi minha semana de trabalho com o grupo. O primeiro dia, embora eu tenha trabalhado dando inicio a um plano que seguiria a semana toda, serviu apenas de reconhecimento. Para o dia seguinte tudo foi mudado radicalmente. Regras da navegação: as velas tem que ser manobradas conforme o vento sopra. Felizmente eu estava diante de um grupo de atores muito comprometidos com o projeto e generosamente abertos para experimentar. Se deixaram conduzir, ativamente e com muito entusiasmo e inventividade. Com esse clima propício e tendo virado o leme no segundo dia, no terceiro dia já surgiu o que seria o esqueleto do que mostraríamos para o público no final do processo. Tudo sem deixar de primar pelo que era mais importante, a troca de experiência e não o resultado final. Conclusão, tivemos algo condizente com a qualidade e seriedade do grupo como mostra desse processo de uma semana, eu aprendi muito como diretor ao colocar a prova a minha experiência e por trocar com um elenco tão maduro e generoso e acredito que o grupo também saiu com alguma coisa. Se de tudo que trabalhamos, conversamos nada tiver um aproveitamento direto, pelo menos serviu para fazê-los refletir sobre seus pontos de vistas a cerca de seus trabalhos.
Foi um prazer conhecê-los mais de perto. Não vou desejar boa sorte nessa empreitada porque acho que ela já está com vocês, porque ela sempre acompanha quem trabalha com dedicação, carinho e seriedade. Um grande beijo a todos.
Organizando as idéias
1- BUSCANDO COMPREENDER (Questões iniciais)
Antes de iniciar a construção textual, acho importante me conectar ao sentido maior da montagem. Buscar o porquê, a necessidade que deu início a tudo. Sei da admiração de todos pelo livro de André, mas sei também que a escolha se deu de forma pragmática, visando atender às prerrogativas do edital, já que havia apenas uma semana para o encerramento das inscrições.
A urgência, digamos assim, foi motivação. Portanto, não pude desprezar este elemento. Precisei encontrar as raízes dessa urgência. Uma delas, obviamente, está na possibilidade de uma montagem patrocinada. Quase todos os grupos se inscrevem em editais, mas eu precisava achar o que se passava “neste” grupo, e não em outro qualquer. O que alimentava essa urgência.
De cara, tenho um grupo exponencial da região Nordeste, em crescente reconhecimento externo. Internamente, porém, o grupo passou por um maremoto que levou alguns membros. Depois das fortes ondas, o primeiro movimento é o de se por em pé, até mesmo por impulso. É humano. Diante do alarme, primeiro reagir. Depois pensar.
Imagino que este impulso de reafirmação, por parte dos que ficaram, seja o cerne de tudo. Mas não é tão simples. A equipe mudou, o grupo se afunilou. Trata-se de uma nova configuração. Se as coisas já não são as mesmas de antes, reafirmar-se, neste caso, será também reentender-se.
2- ATO DE RESISTÊNCIA
Quando um grupo pretende se reentender, volta às perguntas mais básicas, como:
- O que nos une?
- Porque ficamos nós?
- O que queremos do teatro?
- O que “não” queremos?
- Qual a essência do que fizemos até agora?
- Quem sou eu para meu grupo?
- O que é a nossa arte diante do mundo?
Questões tão amplas que jamais teremos todas as respostas. Devemos sempre estar nessa revisão interior. Mas há momentos excepcionais, em que essas perguntas nos vêem com mais intensidade, tornando-se a própria matéria de construção do espetáculo. Acredito que este seja o caso.
A montagem de O CAPITÃO E A SEREIA me parece, cada vez mais, uma auto-reflexão sobre a condição existencial (e até mesmo material) do próprio teatro. Uma atitude de resistência a tudo, nos mais diversos sentidos.
Daí a ideia de uma peça que valorize o trabalho do artista. Quanto ao processo, o grupo já começa a definir opções estéticas coerentes com o pensamento de resistência: pretende buscar o que o teatro tem de inconfundível e, sobretudo, insubstituível. Sem floreios, sem maiores efeitos.
Em tudo a concepção desta peça me parece um retorno ao embrionário. Na forma e no conteúdo. Da simplicidade das perguntas à precariedade do fazer. E fazer simples é muito difícil. Como diz Clarice Lispector: “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho".
Ser simples é não enfeitar, é ir direto ao ponto. Nada mais importa, a não ser o essencial. Daí a busca por esse teatro-manufatura, pela teatralidade que se revela aos olhos da platéia, que desmistifica inclusive o glamour da surpresa, da estréia. Que vai se mostrando passo a passo como exercício, como trabalho suado.
3- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pensando numa escrita sob medida, acredito cada vez mais na importância de trazermos a história O CAPITÃO E A SEREIA para perto da própria história do Clowns. Que as trupes por vezes misturem e se confundam. Uma sugestão que surgiu no blog me parece ser uma boa ferramenta: a ênfase estar no olhar da trupe, e não no de Marinho. Enfim, ideias continuarão surgindo, mas quis destacar essa, que me chamou atenção.
Fundamental mesmo é pensarmos maneiras de realçar essas relações de cooperação e cumplicidade. Um correndo para colocar o cenário para o outro, um tocando para o outro que canta, alguém limpando o chão para a cena do outro... sei lá. São apenas exemplos tolos. Falo de mostrarmos que o teatro é uma experiência coletiva profunda. Resistir, resistir, resistir!
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Seu Ambrósio
A partir disso, o grupo se dividiu em duas unidades, a partir da semelhança dos fazeres. Brincamos a partir dessas duas unidades, uma era o centro do círculo e a outra a parte de fora, e essas se relacionavam.

Acabado esse primeiro momento, Fernando leu uma história do livro “Histórias do Mar”, chamada “O Velho do Mar”, conto tradicional da Sibéria. Depois, dividiu os atores em duplas: meninos para um lado, meninas pro outro. Seguiu-se uma pausa para um lanche rápido, e depois Helder leu a história novamente, e Fê deu 10 minutos para os meninos fazerem o workshop.
O importante não era contar a história tal e qual, mas sim brincar com a pulsação, o andamento, com o ritmo do baião.
Helder observa atentoCésar e Marco foram os primeiros a apresentar. Eles criaram a imagem de dois pescadores no mar, sentados num barco, um de costas para o outro, segurando suas varas de pescar, lembrando de uma história que havia acontecido. Eles brincaram com onomatopéias, com repetição de palavras, com movimentos, buscando permanecer no mesmo andamento. O tempo todo faziam jogos de palavras com muita picardia, sempre um provocando o outro.
Em um provável momento de "baixaria", César e Marco pescam e se divertemDepois, Renata e Camille contaram a história. Elas pediram que os ouvintes deitassem no chão e fechassem os olhos. Desenharam no chão, ao redor de cada pessoa, redes. Usaram o reco-reco, a escaleta, e um pano.
Renata e Camille contam sua história pra platéia nas redesAssim que elas acabaram de contar a história, sentamos e conversamos sobre as duas apresentações. Helder falou que era preciso deixar mais claro o trilho, ter mais precisão, e que o baião não permaneceu dentro (interno) o tempo inteiro.
Os meninos falaram da dificuldade de manter a pulsação na relação com o outro, e ser conduzido pela pulsação da cena. Fernando disse que acredita que isso vem com a repetição, que é necessário treinar para chegar a isso, que é importante ter a consciência, e isso eles tinham, agora é preciso apropriação.
Em seguida, Fernando pediu que Marco e Helder pensassem em uma pulsação, em música, que pudesse ser usada nas cenas que foram apresentadas, sem medo de radicalizar. E para Rafa pediu que trouxesse um texto, também baseado nas cenas.
Após a conversa, os meninos começaram a brincadeira. Helder mostrou um pouquinho da brincadeira do Cavalo Marinho. Os meninos pegaram alguns instrumentos e formaram o banco, e Renata ficou sendo o Capitão. Helder fez o Ambrósio. Eles brincaram, cantaram toadas, viram as figuras que o Ambrósio trouxe, bom demais!
Cada dia de trabalho tem sido mais divertido do que o outro mesmo com tanto calo nos pés.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Capitão Marinho
Em seguida, cada um mostrou o seu material aos outros, apenas com a música interna, depois cada um reproduziu o movimento de outra pessoa, a partir da indicação do Helder. Então, ele demonstrou algumas possibilidades de junção dos materiais fixados, trabalhando os diversos parâmetros.
Após isso, conversamos sobre o trabalho.
Por que o nome Cavalo Marinho? Existem várias versões, e a que o Helder mais gosta é que o nome vem de uma das figuras mais importantes, o Capitão. Dono da brincadeira, é ele quem chama as outras figuras, fala através de poesia e entra usando um cavalo. Em certo momento da brincadeira, ele chega com seu cavalo, daí a ideia de Cavalo Marinho. Existe uma versão de que Marinho é um sobrenome de alguma família importante que já existiu.
A sistematização do trabalho que Helder traz a partir da sua formação em Cavalo Marinho nos mostra grandes possibilidades de criação para o ator, pois não estamos aprendendo a brincar, embora interesse ao grupo conhecer essa dança, mas estamos vivenciando um “jeito de fazer”, como Helder gosta de falar, e isso abre portas para criação de personagens, matrizes, de partituras corporais e musicais. Além disso, ele trouxe por outra via, a da pulsação, o que o trabalho energético propõe mas, no nosso caso, mostrou-se de forma mais eficiente na produção de energia para a cena.
Helder trouxe um texto de cordel, e cantou como no maracatu, ele fez isso para mostrar um texto que tem regras específicas, como no maracatu, que seguem parâmetros, mas que é possível criar a partir de combinações.
Fernando passou uma tarefa de casa para os meninos, pediu que eles pensassem em como contar uma história mantendo um andamento, uma pulsação, com o ritmo do baião, essa pulsação tanto poderia ser externa, como interna. A história ele só vai trazer amanhã.
E pra finalizar, Helder colocou algumas músicas (no som novo!) e pediu que identificássemos a pulsação.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Mergulhão
Antes de partirmos para o trabalho prático, tivemos uma conversa rápida com Helder, na qual ele apontou algumas coisas em relação ao que iria fazer e tirou dúvidas. Falou que os exercícios não exigiam nenhum pré-requisito físico, da sua formação no cavalo marinho, da forma de fazer, da relação do indivíduo e do coletivo, e do elemento básico desse fazer: a pulsação. Os meninos também colocaram que seria interessante conhecer mais sobre a brincadeira do Cavalo Marinho.
O primeiro exercício que fizemos foi em cima de algumas propriedades do Mergulhão*. Primeiro, cada pessoa escolheu o nome de um lugar (Marco/praia, Rê/parque, Helder/montanha, César/rio, Camille/morro, Fernando/árvore, Paula/beco), depois o jogo continuou e passou por cinco etapas:
1. Estabelecer relação
2. Relação com pulsação
3. Relação e ritmo
4. Relação, ritmo e tempo específico
5. Relação e desenho rítmico do passo (o passo acompanha a toada*).
Durante o jogo, Helder foi explicando algumas coisas, falou sobre o baião ser o pulso do jogo, ritmo do Cavalo Marinho, da relação de conhecer primeiro o seu lugar para depois ir a outro – isso é bem parecido com o que Lima trouxe na semana anterior, primeiro existir/ser para depois relacionar –, e a diferença dos eixos do corpo, como este se comporta usando a frontalidade e a lateralidade.
Depois de uma pausa para descansar, iniciamos o segundo momento, em que trabalhamos a mesma coisa, mas sem formato de jogo e de forma mais específica.
Cada um encontrou uma pulsação interna, e essa pulsação foi transmitida a partes isoladas do corpo, como braços, cabeça, ombros, quadril… Continuando, encontramos uma pulsação coletiva, e Helder foi direcionando o exercício através do deslocamento dos atores no espaço. Ele trabalhou em cima de parâmetros musicais, como volume – este relacionado a movimento, espaço, níveis –, altura, andamento, compasso, entre outros.
Foi muito interessante a forma como Helder conduziu o primeiro e o segundo momento de hoje, pois nós chegamos ao ritmo do baião de uma forma muito fluida e divertida, e fizemos alguns passos de outros momentos do Cavalo Marinho. Depois conversamos, com a presença também de Sávio de Luna.
Na conversa, Helder falou sobre o Cavalo Marinho, disse que ele tem regras específicas, um modo de dançar em relação a música, uma relação direta com a necessidade que o move e não tem caráter religioso, embora possua religiosidade. Foram levantadas algumas questões sobre a relação da música com a dança; tradição x contemporaneidade; o corpo como instrumento musical; o uso da tecnologia, a precariedade no fazer teatral e a criatividade; não ser refém de um espaço; sua relação com a tradição; e a escola da tradição.
Uma imagem bacana que Helder trouxe durante os exercícios foi a seguinte: através da pulsação, define-se o trilho de um trem. O ritmo é o baião, e a viagem é o trecho que leva a várias variáveis dentro do baião, um lugar mais específico. A pulsação guia, mas não limita, e é importante que essa pulsação, antes de ser exteriorizada, seja internalizada, como se o nosso corpo fosse água, uma barragem que transbordasse.
*Glossário:
Mergulhão: É uma dança, momento que faz parte do início da brincadeira do Cavalo Marinho.
Toada: música do cavalo marinho.
Loa: poesia recitada.
Trupé: passo (desenho).
Martelo: refrão da música, momento em que há o mergulho.
Banco: grupo de músicos que tocam no Cavalo Marinho, formado por rabeca, pandeiro, baje e mineiro (ganzá).
sábado, 27 de junho de 2009
Juntando histórias

Hoje foi dia de duas apresentações: do exercício dos meninos criado a partir dos encontros com Lima, e do espetáculo “O Circo de um Homem Só”, de Lima, ou do palhaço Amori, ou quem sabe, se um dia ele decidir mudar mesmo, do Tiziu.
Antes de começar a relatar como as coisas se encaminharam, como tenho feito ultimamente, quero falar um pouco sobre como tem sido pra mim fazer os relatos do processo de montagem dos clowns.
Quando Fernando perguntou se eu gostaria de fazer esses relatórios, fiquei em dúvida pelo fato de que escrever não era uma prática recorrente do meu dia-a-dia. E confesso que ainda não encontrei a melhor forma de relatar os acontecimentos do grupo, e que espero logo conseguir, pois assim, como os meninos estão curtindo o processo, eu também estou curtindo acompanhar o andamento das coisas, e acredito que será uma experiência muito enriquecedora para mim enquanto atriz, por poder observar como se dá o processo de criação dos atores e, enquanto relatora, por estar colocando em prática o ato de escrever e pensar sobre teatro. Além disso, agrega-se o fato de eu poder unir o útil ao agradável, pois farei minha monografia de especialização em cima do processo do grupo, e também estou perto de alguém que amo muito.
Portanto, sem mais delongas, quero agradecer ao grupo, e dizer que tem sido importante para mim estar próxima de pessoas que pensam teatro, que vivem teatro, e que amam teatro.
Agora, após esse parênteses, volto aos acontecimentos de hoje.
Os atores chegaram no barracão, fizeram os preparativos para apresentação, arrumaram o espaço e afinaram a luz. Depois, fizeram um alongamento, orientado por Lima, e em seguida um aquecimento, onde aprenderam passos da capoeira.
Daqui a pouco falo sobre o aquecimento, agora quero falar da pessoa Lima. Pense num carinha generoso e querido! Podem dizer que eu estou puxando o saco, mas a verdade, é que gostei muito de acompanhar o encontro de Lima com os Clowns e, porque não, comigo também. Primeiro, porque ele é um bom contador de histórias, que estava sempre procurando passar conhecimento para os meninos, de forma muito tranquila e de sorriso no rosto. Segundo, porque acho que ele teve um procedimento de trabalho muito legal durante essa semana, e olha que ele disse que não sabia sistematizar seus conhecimentos, vai ver que esse foi o barato.
Pronto, voltemos a capoeira. Lima explicou como fazer o gingado da capoeira, a meia-lua, a meia-lua de compasso, e a negativa, que é um esquivo do golpe. Depois de aprenderem no passo a passo, em dupla, eles treinaram o gingado, o golpe e o esquivo, e quem entrou para gingar também, foi o fotógrafo Cuca, que já tinha feito capoeira há algum tempo.
Aquecidos pela capoeira, os meninos formaram uma roda, e cantaram as músicas do exercício “Juntando histórias”, nome denominado por Lima. Marco foi orientando, e fazendo alguns ajustes. Além disso, fizeram um ensaio de todo o exercício.
Ao término, os meninos foram para trás das cortinas, esperando o início da apresentação. O público ia entrando aos poucos, e os atores também. Enquanto estava apenas Marco em cena, entrou uma senhora bêbada, pedindo para assistir o que iria acontecer ali, depois de sentada, ela falou algumas vezes “eu tô com fome”, e depois saiu do barracão.
Marco, que já estava no palco, como o seu personagem-escritor, aproveitou para postar no blog enquanto o público ia entrando, relatou sobre essa senhora, dentre outras sensações que lhe passavam pela cabeça, de forma muito natural e presente.
Depois de todos os atores entrarem, Lima anunciou o inicio do exercício 80.423, ou melhor 80.424, uma brincadeira dos meninos, como o Fernando já comentou no post anterior.

A apresentação do exercício denominado por Lima de “Juntando Histórias” foi boa. A história é mais ou menos o seguinte: quatro atores da trupe assumem seus personagens para contar uma história. Marco é um escritor que está lembrando de algumas entrevistas que fez com uma lavadeira, um pescador e uma dona de casa e, por fim, termina de escrever o seu livro, O Capitão e a Sereia.
Depois da apresentação, foi Lima que entrou em cena, com seu espetáculo, “Circo de um Homem Só”, que divertiu bastante a todos. E quando terminou, deu-se inicio ao debate. E Fernando e Marco situaram um pouco o público sobre o que vem acontecendo no barracão.
Lima também falou um pouco sobre o seu trabalho, e que não havia sistematizado nada específico para ser trabalhado com os atores nessa semana. Porém, à medida que ele ia vendo algumas necessidades, ia propondo exercícios, e que utilizou de alguns princípios que costuma trabalhar, como o clown e Laban.
A Gisele, dos Contemplados, perguntou porque Camille lavou a mesma roupa várias vezes, e disse que isso tinha incomodado. Então, Lima falou que a apresentação foi de um exercício que não estava acabado, e se isso fosse virar um espetáculo, aí eles teriam dedicado mais tempo a alguns detalhes, a todos os símbolos, etc. A partir disso, César falou de como é interessante essa observação, para se entender como tudo é signo no palco, e que tudo tem significado.
Henrique, do Beira/Atores à Deriva, perguntou se era objetivo dessa montagem ser fiel ao texto, falar através da narrativa. Então César falou que a palavra não iria ser suprimida, mas que nesse exercício específico ela vinha como um elemento condutor. Fernando também comentou sobre a utilização da palavra pelo grupo, que ela sempre esteve presente como organizadora, mas que não havia sido tão cuidada como o grupo gostaria que fosse, e que neste processo a relação contação/narração será explorada. Marco falou que seu primeiro contato com o livro foi através da imagem, e que agora eles estão mergulhando no texto.
Surgiu uma pergunta para Lima, sobre a relação do palhaço, teatro, circo, como ele via essas relações. Ele então comentou que, para ele, não importa onde o palhaço se apresenta, de onde vem sua formação, se é do circo, da faculdade, do teatro, mas sim o que ele quer comunicar, o que quer mostrar como resultado estético.
Alex fez duas perguntas: como foi para Lima encontrar com os Clowns, trabalhar com eles essa semana, e qual a relação do trabalho de Lima e do Márcio. Lima falou da boa relação que teve com o grupo, e de como ele chegou com medo de que os meninos tivessem grande expectativa sobre ele. Comentou como era bom trabalhar com gente talentosa (talento para ele é muita ralação, suor), e que aprendeu muito com essa experiência.
Os meninos (atores) falaram da tranquilidade e generosidade com que Lima trabalhou, e o quanto eles estavam receptivos e abertos para esses encontros. César comentou sobre algo que o inquietava. ... E Fernando falou de como os dois diretores trabalharam de maneiras diferentes, o Márcio trabalhou muito a discussão da cena, e Lima já trouxe um trabalho mais corporal.
Mariana Guimarães perguntou para Fernando qual era o papel dele como diretor nesse processo que tem sido tão aberto, que tem tido encontro com outros diretores. Ele respondeu que não existem regras, e que aos poucos vai observando e conectando com o trabalho. Disse também que o grupo sempre trabalhou com o levantamento de material, a única coisa nova para o grupo será a dramaturgia, e que ele tem levado com tranquilidade, embora saiba que é um desafio não perder o fio da meada.
Depois, a partir de uma provocação do Marcos Martins, o debate foi pro rumo da “ilusão”. O grupo explicou que sua relação com a ilusão é trabalhar ela teatralmente, de forma assumida, sem pretensões de iludir a platéia.
Ainda teve uma última pergunta sobre a construção musical da cena. Marco comentou da importância da contribuição dos atores nessa construção e da relação de ter música em cena, mas não é necessário que seja uma canção. E fim.
80.424 experimentos!!!!!
Além da apresentação do experimento, fomos agraciados com o belo espetáculo do João Lima, O Circo de um Homem Só. Foi muito bonito ver aquele trabalho tão cuidadoso, extremamente engraçado, encantando e envolvendo todos na plateia do nosso Barracão. Como é bom ver o nosso Barracão com gente, em especial gente assistindo belos trabalhos como esse! Pela semana que tivemos, e pelo espetáculo de hoje, toda a nossa gratidão, caro Lima!
Por fim, queria destacar a brincadeira com os números dos experimentos que estamos fazendo desde a apresentação do trabalho com o Márcio, que não tenho certeza se já foi citado aqui no blog. O Márcio sugeriu que a cada cena do exercício dele um dos atores anunciasse o número e o título do experimento, num recurso bem brechtiano de antecipar o que a plateia está por assistir em seguida. Neste exercício, os experimentos foram numerados até pouco mais de 9.000, dando uma ideia brincalhona de que tínhamos levantado esse número de experimentos durante a semana com o Marco. Na semana seguinte, abrimos a leitura do livro com a repetição deste último exercício, e finalizamos com o César anunciando o experimento número setenta mil e pouco, que era a leitura do texto “Navegando com o Cavalo-Marinho”, do André Neves sobre a sua obra. Hoje o Lima anunciou, antes da apresentação, o experimento 80.423. Em seguida, corrigi, indicando que era o 80.424. Assim, nosso infindável arquivo de materiais cênicos, corporais, musicais, imagéticos e adjacências, vai ganhando números para o Guiness de maior processo de montagem de espetáculo teatral do mundo!!! E eu, ansioso para anunciarmos os milhões!!!
Meios
Começo a ser meio eu, meio outros.
Até.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Cantoria
Assim que terminaram, eles fizeram uma roda e, sentados no chão, começaram um aquecimento vocal. Lima ia orientando. Primeiro vibração de lábios, depois humming, procurando não tensionar o corpo e ficar numa postura confortável e correta. A seguir, eles começaram a explorar as vogais e suas diversas tonalidades, grave, agudo e suave. Também fizeram vibração de língua e falaram a vogal u, voltados com a cabeça para o chão, procurando escutarem o próprio som.
Depois, começaram a cantar trechos de músicas populares sobre o mar, trazidos pelo Lima. Não só cantaram, como também improvisaram, com Lima no pandeiro. Dava pra perceber que os meninos estavam se divertindo ao cantar. Abaixo, transcrevo a letra de algumas canções cantadas.
Samba no mar
Samba no mar, marinheiro
Quem me ensinou a nadar (2x)
Foi, foi marinheiro, foi os peixinhos do mar.
Meu navio inglês, “das água” de Goiana
Ô, morena bonita, bandeira republicana, aiá.
Ela mora no mar
Ela brinca na areia
No balanço da ondas
A paz ela semeia
Ôgunte, Marabô Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê, Janaína, Yemanjá.
Enquanto os meninos cantavam, Fernando pediu que eu pegasse o peixinho para apresentar ao grupo. A idéia de trazer esse novo integrante veio no dia anterior entre Marco, Lima e Fernando. O peixinho recebeu o nome de Marim, e ficou lá no meio da roda.
Os meninos continuaram cantando e anotando idéias, modificando letras das músicas, lendo o texto e observando quais os momentos de pausa, de sons, de valorização de palavras e de relação entre os personagens.
Camille estava com dificuldade com a música da lavadeira. Marco e Fernando observaram que ela cantava com uma ligeira impostação, além de dar a ideia de um certo desleixo, ou cansaço, ao cantar. Fernando então sugeriu um exercício que todos os atores fizeram juntos. Eles andaram nos passinhos da trupe chegando e cantaram ao mesmo tempo, como rezadeiras, ou carpideiras, quase berrando, até que os três atores pararam de cantar e apenas Camille continuou, achando sua forma de cantar.
Depois, continuaram ensaiando, e aos poucos Lima foi direcionando, propondo ajustes, os meninos criando ações, sugerindo coisas, até que as cenas foram tomando forma, com muita tranquilidade.
Workshops iluminados!
Após passadas três semanas de trabalho, volto a escrever nesse diário. Na verdade, minha contribuição só pode ser esporádica, já que ando muito envolvido com minha dissertação de mestrado, cujo título, ainda provisório, é: Iluminação e a Construção do Espetáculo: uma Proposta Pedagógica. Além do sofrimento de escrever formalmente, tenho que agüentar “esses malas” me chamando de “mestre” como se o conhecimento acadêmico fosse um atestado de inteligência.
Brincadeira à parte, venho aqui descrever sobre duas experiências com luz realizadas nessa última semana de trabalho no processo do capitão, a sombra chinesa do César e a farolete de marinheiro do Marco. A primeira foi inspirada na imagem de um filme (desculpem não me recordo o nome, sou péssimo para guardá-los, assim como o Lima rsrsrsrsrs) e, nada mais é, do que a clássica convenção da sombra chinesa que começa a se comportar a revelia dos gestos do seu dono, como o Peter Pan (não sou louco! Não é esse o filme.). O segundo, foi um exercício com um farolete antigo de marinheiro que se transformava em luneta no decurso do workshop, detalhe, o pequeno telescópio também emitia a luz com uma lanterna adaptada.
Eu e Paul (como carinhosamente chamo o César) ficamos, depois do expediente, experimentando luzes para a melhor realização técnica do workshop. A idéia de trabalhar com sombra chinesa, á uma vontade antiga, e vinha sendo discutida há, pelo menos, uns dois anos com o César, até materializar-se de forma simples e preliminar nesse exercício. O farolete do Marco foi construído e desenvolvido pela nossa querida estagiária Gabriela, que conseguiu sintetizar as idéias mirabolantes, e poéticas, do Air France (a forma não tão carinhosa que chamo o Marco).
A única lamentação foi não estar presente no dia da apresentação dos workshops! De qualquer forma, fica aqui minha felicidade e de ver os atores incorporando o elemento luz nos seus exercícios de criações individuais, já que defendo que a construção da iluminação do espetáculo, principalmente em processos criativos mais coletivizados, não deve ser uma prerrogativa única e exclusiva do iluminador.
Lucy in the Sky with Diamonds
Percebo como ele harmoniza o texto a partir de duas linhas que parecem conduzir a história de forma simultânea. Existe uma seqüência lógica, racional, em sua forma de escrever, mas também uma sequência emocional, sensitiva, como se a fábula apenas se desdobrasse quase que naturalmente, sem o mínimo esforço.
Marinho sai para buscar o mar, se depara com ele, observa, experimenta, usufrui, é acolhido, e por fim, fica intimo do objeto desejado.
Tudo na mais pura e simples lógica de acontecimentos. Assim como deve ser, sem mistérios ou rebuscamento.
Mas, além disso, André cria condições para que um fato leve a outro quase que naturalmente, é nesse momento em que ele apela para os sentidos. Marinho, que durante dias caminhou pelo sertão escasso e quente, em um determinado momento se depara com o mar. André então narra:
E finalmente, numa manhã de sol, quando o calor se misturou à brisa fresca na paisagem verdejante, um mar se abriu completamente, com todos os seus tons de azul. Marinho não enxergou mais nada.
O trecho me remete a uma zona de fronteira, um apelo para os sentidos, uma sensação de refrescância para a pele e para os olhos também. Quando diz que o personagem não enxergou mais nada, quase que sugere o ser estático a contempla, me arriscaria até a falar que imóvel ele ficou por um bom punhado de horas.
E ainda continua:
Tudo cintilava, e o oceano era único e gigante. Depois de sentir todas as sensações a beira-mar, ele mergulhou, e nada mais lhe atravessou o espírito, a não ser o silêncio que se espalhava nas águas.
Acredito não ser à toa que Freud denominou de “sentimento oceânico” as experiências de unidade do bebê com a mãe, através do seio, no momento da alimentação. Também Stanislav Grof, em suas pesquisas psiquiátricas nada convencionais, com uso de LSD e outros similares (ou genéricos! rs), se referiu ao mesmo sentimento para a relação intrauterina.
Ambos, tanto Freud como Grof, falam que essa sensação é rememorada nos momentos em que temos experiências que nos remetem a integração e pertencimento, quando algo nos remete ao sentimento de unidade universal.
Não sei o quanto André Neves tem consciência desses fatos ou o quanto eles são organizados de forma fluentemente intuitiva, mas fato é que durante esses dias, a cada vez que tive de escrever cada palavra do seu texto, fui descobrindo lugares de profundezas intrigantes.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Cordel, nós e cordões
Apesar do caos fazer parte dos processos (pelo menos pra mim), tudo tem sido muito tranquilo e com a certeza de que está tudo sob controle. Atuar sem deixar-se envolver. Deixar a palavra falar por si. "Menos peso". "Relaxado demais". "Tenso demais". "Humanize". "Torne interessante". "Esteja interessado". Sabe aquela sensação de estar diante de um grande banquete onde o nosso pobre estômago não suporta quase nada daquela fartura? Pois é. É preciso comer de tudo, mas em refeições distintas. Comer com moderação. Gordo é uma coisa séria, metáforas e guloseimas...
No exercício de buscar as ações para o ESCRITOR, fui incubido de criar um cordel com duas estrofes que contasse uma história sobre Marinho, e que não estivesse presente no livro do André. Tudo isso com o foco para que eu encontrasse de forma mais natural, ações mais realistas e menos externas. Como a hora é de levantar coisas sem a mínima ideia do que ficará até o final dessa montagem, e provavelmente isso não será usado nesse experimento, registro aqui a criação desse cordel em sextilha, após uma breve consulta ao Deus Google sobre esse formato de compor um texto.
SONHO DE MARINHO
Numa noite de sono curto
Revirando de cá pra lá
Marinho embalou num sonho
Profundo num mundo de mar
E como nadar não sabia
Afoito se pôs a afogar
Foi um reboliço danado
Batida de pé e mão
Num susto acordou mijado
Num pranto abriu um bocão
Sertão de Marinho era mar
Mar de Marinho é sertão
Relatos de uma estagiária.
Pois é, estagiária na casa!
Acho que não tenho com começar esse textinho, porque vai ser bem pequeno comparado com os detalhados e precisos relatos de Paula, sem falar o motivo de eu estar aqui. Tudo começou há nove anos quando inventei de me meter com teatro. Que idéia! O tempo foi passando e de um grupo bobo de escola esta paixão foi se transformando para o olhar de uma arquiteta. Sim, arquiteta formada Muito chique, não?
No fim da minha faculdade aperriei demais Fernando, que com tamanha paciência me auxiliou na horrenda odisséia de escrever uma monografia. Adivinha de que era? Um teatro. Depois disso Fernando nunca mais teve paz, coitado. Inventei de fazer oficinas, mandar email, tudo no mundo. Ele, sem agüentar mais a minha pentelhice, resolveu me chamar pra participar desse processo aquático e me deu a chance que eu tanto ansiava.
Eu cheguei no meio da semana do Márcio Marciano e logo de cara fiquei maravilhada com tudo. Sim, eles são tão bons quanto parecem à primeira vista. E receptivos. Isso não se tem como negar. Assumo que no começo fiquei meio deslocada, sem saber onde colocar as mãos nem os pés, mas depois fui perdendo a vergonha e ficando bem mais a vontade. Escutar e observar tem sido um processo e tanto, muito mais do que eu podia esperar. As idéias brotam e me saem como frases toscas que escrevo no meu caderninho amarrotado.
Com o passar dos dias fiquei mais confortável com essa nova rotina e essa nova casa. Já to quase me sentindo dona do espaço. Cada rosto novo, expressão nova, rostos e sons, não são mais um choque, mais uma surpresa agradável. E é impossível não rir desesperadamente todos os dias. Simplesmente impossível.
Chegou a semana do Lima, e no primeiro dia, assim logo de cara, teve um exercício que me marcou demais. A “Roda do Olhar”como intitulou tão bem a Paula, mexeu com a minha forma de ver aquele grupo. Não mais eu ficava “do lado de fora”, eu já estava do lado de dentro, brincando com eles, jogando bola com eles, entendendo melhor o processo deles. Sinto que tenho um pouco mais de conhecimento de causa, só por causa daquele momento. Uma barreirinha minha caiu.
O processo do Lima é mais corporal e emocional. A racionalidade, pelo menos para quem está de fora, parece estar no canto, só observando invejosa. É interessante presenciar esse outro lado da moeda e ter outras impressões até mesmo sobre o próprio Capitão Marinho, que me parece estar o tempo todo rondando o barracão. Ele e seus aquários.
Então é isso. Não vou me estender mais, porque daqui pra frente ia ser só para encher linhas. Fiz o meu relatinho, que só pode terminar com um enorme agradecimento pela permissão de estar aqui. Dizem que o primeiro amor a gente nunca esquece. Sinto que também não vou me esquecer da minha primeira experiência na cenografia.
Ensaio da trupe
Terminado o Contact, fizemos uma roda, sentados no chão, e conversamos sobre esses dias com Lima, que teve uma avaliação muito positiva e significativa para o grupo, e falou da relação de escutar e de aproveitar bastante o que Lima propõe.
Ao fim da conversa, os meninos começaram a pesquisar formas de andar orientando-se pelas conexões ósseas. Eles escolheram três andares, dos que acharam mais interessantes, e depois mostraram para Lima. Apresentadas as opções, o diretor escolheu um andar de cada um e pediu que os outros também aprendessem.
Fizeram uma caminhada juntos, em formato de cruz, que foi sendo modificado, até que o formato final ficou: Marco na frente, Renata e Camille atrás e, depois delas, César. Lima foi direcionando, propondo ajustes nos andares, buscando uma imagem da trupe chegando.
No exercício seguinte, Lima pediu que um ator fosse para a cena e fizesse uma ação de uma ação qualquer. Depois, enquanto este ainda estava em cena, outros iam entrando, fazendo uma ação diferente, dentro da mesma ação sugerida.
Camille foi primeiro e começou a debulhar algo, que depois ficou claro que era feijão. Marco pegava a vagem e jogava no lixo, Renata catava a sujeira do feijão, César cortava o pé de feijão e trazia para Camille debulhar.
Depois, fizeram o exercício novamente. Marco começou a limpar garrafas, a princípio sua ação não ficou muito clara para mim, porque não consegui enxergar o pano, só vi que ele pegava a garrafa. Aos poucos, fui começando a entender. César preparava drinks, com as garrafas que Marco limpava, Renata começou a beber os coquetéis que César preparava e Camille lavava as taças sujas.
Em seguida, Lima pediu que eles montassem uma máquina em ação, usando os seus corpos e sons. Eles montaram uma máquina que não sei bem como descrever, mas sei dizer que foi divertida e que continha cenas um tanto obscenas.
Ainda na mesma proposta, Lima pediu que os meninos, pensando na imagem da trupe montando o lugar para a apresentação, mostrassem essa imagem apenas com seus corpos, objetos imaginários e sons, e se preocupassem em mostrar que trupe estava montando algo, e não em tornar a cena realista.
Assim, os atores começaram a conversar sobre como fazer isso e a buscar soluções. Um dava uma idéia aqui, outro ali, até que eles chegaram a uma imagem dos quatro atores, abrindo uma espécie de baú grande, e definiram alguns sons interessantes que pontuavam o trabalho da trupe enquanto abriam o baú.
Após isto, os atores montaram os ambientes que haviam criado para os seus personagens – Marco/escritor, Renata/dona de casa, Camille/lavadeira e César/pescador – e começaram a escrever trechos do livro, tentando se concentrar e memorizar. Ao terminarem, eles deram uma passada em tudo. Fizeram a entrada da trupe, a abertura do baú e seguiram para os seus lugares, onde começaram a contar a história do Capitão e a Sereia.
Aos poucos, foram surgindo ideias. Lima experimentou uma proposta que fiz ontem, de que em cada ambiente tivesse um aquário com água. Marco começou a gravar a Renata falando, como se ele a estivesse entrevistando, foi até ela e pegou um cafezinho. Aos poucos, cada ator foi construindo ações interessantes para os seus personagens.
Depois, tivemos uma rápida conversa sobre o ensaio. Ficaram algumas sugestões, como cada ator buscar ações mais sonoras, e outras formas de intervenção nas cenas e nas transições entre cada texto, para dar mais dinâmica e tornar a cena mais interessante.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Memorizando o Capitão
Lima acrescentou três movimentos diferentes para levantar do chão: levantar a partir do contra lateral - de lado, em formato de concha, o ator volta a ficar em “X” de bruços, e aos poucos vai levantando, usando as mãos. Levantar com rotação do braço - queda de joelho com propulsão do braço, a mão puxa o movimento em forma de espiral, e o levantar com irradiação central. Aos poucos, ele ia ajustando os movimentos dos atores.
Como hoje fiquei de fora de todos os momentos, pude experimentar observar esse primeiro momento, que já tinha feito ontem. Fazer é muito gostoso, mesmo quando ainda estava descobrindo o melhor jeito de fazer o movimento, e observar também, pois achei tão bonito ver quatro corpos diferentes, com seus limites, suas desenvolturas e facetas, tudo tão tranquilo.
Os procedimentos de Lima e explicações, são muito próprios de alguém que gosta de ensinar. Ele tem prazer em falar sobre o que conhece, e vem dirigindo bem esses encontros. O que eu sento falta é de momentos de conversa sobre os exercícios feitos. No entanto, se essa conversa de que senti falta tivesse acontecido, me pergunto se não teria se estendido muito, e se os atores teriam perdido outros momentos tão importantes, e se essa é apenas uma sensação minha e não dos atores.
Depois veio a “Roda do Olhar”, agora feita com os quatro atores e Lima. Depois da roda, uma sacudida no corpo, e partiram para experimentação das conexões ósseas, ao som de música, que trocavam ao comando de Lima. Eles também experimentaram as conexões falando um texto do Capitão.
O próximo comando foi caminhar normalmente, sem andar mecanicamente, e quando alguém parava, todos paravam. Em seguida, caminhar com um objetivo, e de repente, mudar de objetivo e caminho. Aos poucos iam sendo acrescentadas outras informações, como caminhar, parar e mudar de objetivo; caminhar interessado no objetivo; etc.
Então, Lima pediu que escolhessem um ponto na sala. Depois um segundo ponto. Os atores foram para o primeiro ponto, depois para o segundo e voltaram para o primeiro. Depois escolheram o terceiro ponto. E assim, memorizaram os três pontos.
Assim, criaram um caminho que passavam pelos três pontos, e esse caminho não deveria ser em retas. Depois de memorizada a trajetória, eles fizeram o caminho explorando os três planos, alto, médio e baixo; os ritmos, rápido, normal e lento; chorando, cantando e sorrindo; raiva, medo e vergonha.
Esse exercício foi bem divertido, os meninos são muito criativos. Lima pediu para que no começo fizessem 100%, o extremo do estado, para depois mudar. E eles não podiam repetir o mesmo elemento de um trecho para outro. Também falou uma frase interessante para os atores, enquanto eles faziam o exercício, e que tomo para mim também, “não queira ser interessante, esteja interessado”.
Para o próximo exercício, as cortinas pretas ao fundo da sala foram fechadas, e no meio da sala foi colocada um cadeira e uma bola. Os atores tinham que escolher dois estados, entrar com um deles, e ao se relacionar com a bola e, estimulados por essa relação, mudar para o outro estado.
Camille foi a primeira. Ela entrou pensativa, e saiu com raiva. Foi bem clara a mudança dos estados, só que ela não havia mudado por causa da bola, pois quando Lima explicou, não tinha ficado claro que a causa da mudança de estado, teria que ser o objeto.
O segundo foi César. Ele entrou envergonhado, e a bola o fez cair, assim ele saiu com muita raiva. Foi interessante ver o César, ele estava em outro registro corporal que eu não conhecia.
Na vez de Marco, ele entrou emburrado, se machucou com a bola, e saiu com mais raiva e dor.
Renata entrou muito triste, mas voltou para trás da cortina, porque o público estava rindo e ela acabou rindo também. Fez isso mais uma vez. Na terceira, ela aproveitou o estado de alegria, entrou rindo e, ao ver a bola, ela ficou triste.
Quando as cenas terminaram Fernando comentou que achou que a de Renata teve uma pequena transição entre as mudanças do estado, e que na cena de Marco ele não viu a mudança de estado. Após uma ligeira discussão “boa” sobre se a dor proporcionou uma mudança de estado ou não, entre Marco, Fernando e Lima, este perguntou a Marco: você concorda com Fernando? Mostre!
Marco fez novamente. Entrou com o estado de raiva, emburrado, e ao se machucar com a bola, passou para o estado de dor, lamentação. Na segunda vez ficou mais clara a mudança de estado, e no fim, chegamos à conclusão que Fernando e ele estavam falando da mesma coisa.
Camille teve a sua segunda chance. Entrou com raiva, mas ao ver César rindo, voltou para trás da cortina. Assim, Lima aproveitou e disse que ela tinha que provar que existe, ver e ser vista. Então ela entrou novamente com o estado de raiva, e ao pegar a bola, ficou tranquila e saiu de cena.
O exercício seguinte partiu do pedido de ontem do Lima, que os meninos pesquisassem as ações de escritor (Marco), lavadeira (Camille), dona de casa (Renata) e pescador (César). Devo dizer que os meninos foram bem além do que o Lima pediu, e isso foi bom. Utilizaram vários elementos de cena, e criaram ambientes para fazerem as ações dessas pessoas. Enquanto isso, além de ajudar os meninos, Gabriela pesquisava figuras de igrejas, e lia o livro Architecture, Actor e Audience, de Ian Mackintosh. Ronaldo também esteve por lá, e ajudou os meninos.
O que Lima queria com esse exercício era que os meninos experimentassem fazer, o que essas pessoas fazem, e não fazer de conta. A pessoa é o que ela faz, ele disse. Assim, ele foi até Marco, e pediu que ele (que estava pesquisando ações de escritor, de uma forma muito “mostrada”), escrevesse duas estrofes em cordel, de uma passagem do livro do Capitão. Para quem estava de fora, foi nítida a diferença, das ações, do olhar, que Marco fazia antes, e depois, em que ele estava preocupado em fazer o que o Lima pediu, foi mais interessante.
Renata, pesquisando ações de dona de casa, trouxe um som, cantou músicas, comeu milho, varreu, deu café para os vizinhos, em alguns momentos, conversou com as pessoas.
César com seu barco-case, tinha uma rede de pano, uma garrafa ao lado, uma vara de bambu que era o seu remo, entre outras coisas. Ficou um bom tempo, ajeitando sua vara de pescar, pelo que eu entendi, e parecia realmente alguém que ia pescar.
Camille, no início, estava apenas com uma bacia, e os seus outros elementos eram imaginários. Apesar da ideia ser boa, estava destoando dos meninos, que tinham tantos elementos. E já que era para pesquisar as ações, fazer o que uma lavadeira faz, Lima trouxe para ela uma tábua, onde ela poderia lavar roupa, depois eu sugeri que ela pegasse roupas também.
Após a pesquisa de ações, sentados nos ambientes que haviam criado, os atores escreveram os mesmos trechos de ontem, do livro do Capitão.
O exercício seguinte foi um jogo com a bolinha. Em dupla, virados de costas para a platéia, os atores viam uma bolinha que o Lima jogou e decidiam, sem falar, qual dos dois pegaria a bolinha primeiro. Ao pegar a bolinha, o ator jogava para outro ponto do espaço, quando deveria ser pega pelo outro ator. Todas as ações deviam ser feitas olhando para a platéia, e exercitando a triangulação, objeto, pessoa e platéia.
Posteriormente, os atores fizeram o exercício de ontem do banquinho, dessa vez, cadeira. Aquele que entram em cena com a cadeira, têm dúvida de onde colocá-la, depois sentam e contam os trechos do livro que copiaram. Nenhum dos meninos conseguiu passar da primeira frase, também não é fácil mesmo, mas que é divertido, isso é.
Lima então, pediu que eles voltassem para os seus lugares, dessem uma olhadinha no texto e, um por um, com o livro em suas mãos, pediu que eles falassem o texto. Repetiu isso várias vezes. Aos poucos, os meninos iam conseguindo memorizar mais palavras, mais texto. É engraçado ver a cara deles, tentando memorizar, e putos – o Marco, mais especificamente – quando esqueciam.
Por último, como tarefa de casa, Lima pediu que lessem o livro em casa, sem ler em voz alta, apenas com o olhar, memorizando os trechos, e que trabalhassem as ações e os textos separadamente.
Finalizando, os atores e Lima fizeram uma roda de mãos dadas, e com entusiasmo gritaram “Clowns de Shakespeare”.
Uma provocação!
Richard Tarnas – A Epopéia do Pensamento Ocidental.
Não sei se posso ou devo abraçar o postulado de Tarnas incondicionalmente. Não sei se as complexidades de toda uma época caberiam tão facilmente em um mapa dualista como esse. Mas fato é que, no livre exercício reflexivo sobre o nosso querido Capitão, temos aí uma provocação interessante.
Certo dia, sem muitas explicações, Marinho larga seu ofício, seus amigos, sua trupe, para ir em busca do seu sonho. Chegando lá Marinho percebe que o seu mar só faz sentido no contexto da realidade que ele abandonou, ou ainda na plenitude do seu ofício.
Então eu pergunto:
Qual o custo do alargamento do território humano?
Sob que interesses o homem traça sua jornada, sua busca?
Quais são seus verdadeiros balizadores?
terça-feira, 23 de junho de 2009
Pegue o seu banquinho...
Ainda em círculo, começamos a jogar uma bola, de um para o outro, e pensar em modos diferentes de fazer isso. Depois o círculo foi desfeito, e nos movimentamos pelo espaço. Aos poucos, Lima ia dizendo regras diferentes, como: pegar e jogar a bola tirando os dois pés do chão, e caso a bola caísse, todos iam para o meio rapidamente, se abaixavam e olhavam nos olhos dos outros, depois voltavam a jogar. No decorrer do exercício, a bola passou a ser invisível, e podíamos transformá-la em outras coisas. Foi bem divertido.
Lima falou sobre como andar, sem deixar o corpo ir para frente, encontrando o eixo, e percebendo a transferência de peso. Assim, experimentamos o andar pelo espaço, e aos poucos fomos acelerando. Combinando com o olhar, caíamos no chão, primeiro com pessoas mais próximas, depois mais longe, e voltavámos a andar.
Em seguida, formamos dupla, uma pessoa ficou deitada, e a outra sentada ao lado, observando. Depois trocamos. Primeiro fizemos rotação dos pés, depois o sobe e desce do calcanhar. Repetimos algumas movimentações do sistema de Laban, feitos ontem, como pré-elevação da coxa, movimento centro-periferia, queda de joelho, entre outros. Depois todos deitaram no chão, em diagonal, um pegando nos pés do outro, e fizemos uma corrente de torções, utilizando o alongamento homolateral.
Terminado a corrente, partimos para o próximo exercício, as “Conexões Ósseas”. Lima pegou cartolinas e colou-as, Camille deitou em cima delas, e Gabriela desenhou o contorno do seu corpo. Usando o desenho, Lima foi explicando as conexões que o nosso corpo possui, e falou da importância de conhecermos o nosso corpo, para nos aquecermos sem esquecer nenhuma parte, e também para criar.
Assim, andando pelo tablado, com música ao fundo, experimentamos todas as conexões: cabeça/cóccix, escápula/escápula, escápula/mão, ísquios/calcanhar, trocanter/trocanter e púbis/cóccix. Experimentamos também dançando uma música. E Lima relembrou as movimentações do dia anterior, mexer apenas parte de cima do corpo, lado direito, e assim foi. Até que deitamos no chão, de olhos fechados, e corpo relaxado. Lima então levantou nossa cabeça e as pernas, mexendo, para que relaxassem. Ficamos um pouquinho lá, depois abrimos os olhos e começamos a espreguiçar o corpo, aproveitando bem.
O exercício seguinte foi de memorização, os quatro atores, Rê, Marco, César e Camille, pegaram os seus livros do Capitão, e copiaram em uma folha de papel, algumas páginas indicadas por Lima, por duas vezes. Eles tinham que ficar bem concentrados, e prestar atenção nas palavras que escreviam.
Em seguida, todos sentaram nas cadeiras, e o Lima pediu que cada um, na sua vez pegasse o banquinho, e escolhesse o melhor lugar para colocar, depois sentasse e contasse o trecho da história que tinham copiado, com as mesmas palavras do livro, sem errar, sem vacilar. Tudo isso deveria ser feito com uma relação de olhar com a platéia muito próxima à do palhaço. Quando alguém vacilava ao contar a história, o Lima dava um "tchauzinho", (e o resto do público acompanhava) e o ator deveria imediatamente interromper a contação, e dar um jeito de finalizar a cena, saindo do palco.
Para isso, o diretor pediu que pensassem em três coisas: ser, estar e fazer, nessa sequência. E que primeiro vissem o público, em seguida, pediu que ao para colocar o banquinho no lugar, mostrassem antes a dúvida de onde colocar, de qual seria o melhor lugar.

César foi o primeiro. Ao entrar em cena com o banquinho, César demonstrou, fez, antes de apenas “ser”. Então ele retornou e começou novamente, apenas sendo. Observando o César, percebi que em alguns momentos seu olhar se perdia, e parecia que para conquistar o público, ele sorria, e me parece que não era necessário ele fazer isso, mas sim, simplesmente estar sereno. Depois ele sentou, e contou o trecho de sua história.
Marco começou o exercício com um andar muito pesado, além de muito característico dele em muitos personagens e exercícios que já vi. Depois, ficou mais neutro. Encontrou um jogo divertido entre a cadeira e o ventilador. Ao contar a história, mostrou uma grande desenvoltura para enrolar, já que claramente não lembrava das palavras, mas tinha habilidade para falar com fluência.
Renata ao entrar com um banquinho, escutou um forró que vinha da vizinhança, alto, e se aproveitou disso em alguns momentos, e gerou um jogo legal, mas ainda assim a música atrapalhou sua cena. Algumas vezes, ela esquecia de olhar para o lugar onde ia colocar a cadeira.
Camille também fez, antes de ser. Mas continou e, quando estava iniciando o jogo com a cadeira, decidiu rapidamente pelo lugar oposto de onde Marco estava, pois ele havia soltado um pum, um peido mesmo, que inclusive afastou todo o resto do público que estava próximo a ele.
Ao sentarem nas cadeiras, cada um na sua cena, começaram a contar os trechos das história do livro, no entanto, todos esqueceram, uns mais do que outros.
Para finalizar, pois o tempo hoje foi mais curto, devido uma reunião do Redemoinho Natal, às 19h, Lima apenas solicitou dos atores que pesquisassem um repertório de ações. Marco, como escritor/repórter, César como pescador, Renata como uma dona de casa, e Camille como uma lavadeira.
Tivemos hoje também a presença do querido Maurício Cuca, fotógrafo do estúdio P, que vai acompanhar o processo. Legal! E também estava presente, nosso querido Ronaldo, iluminador 10!
Foi isso...
...e saia de mansinho!
Simplesmente Lima
Interessante disso tudo é que no domingo, em um estimulo que veio não sei de onde, decidi (re)ler a trilogia de Stanislavski, desde “A Preparação do Ator”, passando pela “Criação de Um Papel” e findando na “Construção da Personagem”. Isso me fez com que chegasse para o primeiro dia de trabalho com Lima ainda permeado pelo entusiasmo dos alunos em seu primeiro dia com o diretor Tortsov.
Não sei como se seguirá a semana de trabalho, mas sei que estou gostando, tanto da leitura com o Russo quanto do trabalho com o Baiano. Tenho percebido nos pequenos workshops que temos realizado a importância de um trabalho de base para o ator, que por vezes me falta. Por isso oportunidades como essa, de revisitar os mais primários fundamentos, principalmente em meio à loucura de um processo, me parece tão indispensável.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Dia de Iemanjá

Hoje foi o primeiro dia de trabalho com o diretor João Lima. Começou com uma conversa rápida sobre a programação do grupo nessa semana, e o Lima falou um pouco sobre o roteiro que pretende trabalhar, mas que tudo irá depender do andamento da semana.
Participei de alguns momentos dos exercícios propostos por Lima. O primeiro deles, foi a “Roda do Olhar” (denominação do próprio). Todos da equipe fizeram um círculo pequeno, e cada um, na sua hora, foi para o centro, e olhou nos olhos de todos que estavam na roda. Para mim, foi ótimo ter esse momento, poder parar e olhar nos olhos das pessoas que estão dividindo comigo esse processo, sem precisar dizer nada, apenas olhar e sentir o outro, foi muito bom.
Em seguida, ainda em círculo, trocamos massagens e boas batidinhas. Depois fizemos o “Aquecimento da Felicidade”, criando uma energia positiva para os exercícios que viriam a seguir. O aquecimento consistiu em cada pessoa dizer o nome no meio da roda, com entusiasmo. Depois acrescentamos um sobrenome inventado, e este tinha que ter a mesma letra inicial do primeiro nome. Por último, dissemos o sobrenome acompanhado de um gesto, que foi repetido por todos, em sistema de coro-corifeu.
Começamos a andar pelo espaço, e os comandos do Lima iam se modificando. Primeiro, a gente andou pelo tablado, e quando uma pessoa parava, os outros, no mesmo instante, também o faziam, e quando alguém decidia voltar a andar, os outros também voltavam. Depois começamos a correr, e quando parávamos, tínhamos 8 tempos para deitar no chão, e para subir. Foi isso até chegar à 1 tempo, depois no deitamos, e ficamos em posição de “X”. Os objetivos desse exercício eram trabalhar a atenção, o olhar, a percepção e também aquecer os atores.
O exercício seguinte faz parte do sistema de Laban/Barteinieff. Deitados no chão, ainda em posição de “X”, com os pés direcionados ao teto, fizemos alguns movimentos que cito a seguir:
- Respiração celular: o corpo respira como uma célula só.
- Irradiação central: o ar entra pelas seis pontas, pés, mãos, cabeça e cóccix.
- Movimento centro-periferia: deslocamento do corpo.
- Homolateral: contração dos lados do corpo (direito e esquerdo).
- Pré-elevação da coxa: ao expirar, subir a coxa, até que o joelho aponte para o teto.
- Elevação da coxa: na expiração, levantar a coxa, sem perder a posição de 90 graus.
- Queda de joelho: deixar os joelhos caírem para o lado.
- Queda de joelho com propulsão da coxa: levantar a coxa como se fosse chutar a mão contrária.
- Balanço homolateral: deixar que um lado do corpo, leve o outro.
- Alongamento homolateral: torção do corpo.
Todos os movimentos do corpo, sempre eram feitos na expiração.
Ao terminarmos essa parte, começamos a fazer uma exploração cênica dos exercícios técnicos, atravessando de um lado para o outro da sala, em linha reta: com o corpo todo, total; procurando movimentar apenas da cintura para cima; com a parte de baixo; com o lado direito; com o lado esquerdo; e utilizando torções. Algumas vezes caminhávamos ao som da sanfona, tocada por César, e outras ao som do piano, tocado por Marco.
Depois, o Lima pediu para escolhermos duas formas de andar das que foram exploradas. Divididos em duplas, cada um em uma extremidade do tablado, ao nos encontrarmos no meio, pediu que estabelecêssemos interação, e depois seguíssemos individualmente, ainda na diagonal, influenciados pelo movimento do outro.
Foi interessante perceber essa interação, e o quanto esses movimentos sugeriam imagens interessantes, muitas vezes pareciam dança.
O próximo exercício foi feito em trio. Primeiro, Rê, César e Camille, depois Marco, Fernando e eu. Tinham três banquinhos, e o trio ficava sentado, e de olhos fechados. O Lima pediu para que alguém começasse a contar uma história que tivesse acontecido consigo, e se alguma palavra da história lembrasse o outro de alguma história dele, este utilizava a deixa, interrompia a história do outro e começa a contar a sua. Foi bem divertido.
Depois, sentados no chão, em um círculo pequeno, escolhemos um título de uma história, O último beijo, e o lugar onde ela aconteceria, uma barbearia gay. Para contar essa história, cada um só podia falar uma palavra de cada vez, sendo que preposições e artigos eram considerados palavras, e se poderia utilizar ponto final, mas este não era considerado uma palavra. O interessante é que, ao dizer uma palavra, eu tinha em mente uma história que estava tentando construir, porém a pessoa que vinha depois, tinha outro pensamento, e mudava tudo, no entanto, algumas vezes a história corria como todos estavam pensando, eu acho.
O improviso. Rê e César, fizeram uma cena, em que Renata estava em casa, limpando, e César chegava, primeiro como diretor da escola de Marinho, depois como recenseador. Eles tinham que contar um pouco da história do Capitão. Marco e Camille também fizeram uma cena, Marco fez um vendedor de cruzeiros, e depois de tele-sena, que se encanta de forma grotesca pela Camille, que estava limpando uma casa.
O Lima, a partir das cenas apresentadas, falou da importância dos detalhes e texturas de uma cena, do não interromper a ação ao falar, e de criar outras formas de pensar.
O último exercício do dia, foi o “Diálogo no Espaço”. Em duplas, os atores andavam por um espaço determinado, sendo que um ator caminhava de cada vez. O olhar deveria estar voltado para o horizonte, e todo o corpo estar neutro, também só poderiam andar em linhas retas. Eles exploraram as direções, o tempo do caminhar, e a utilização do espaço em relação ao outro. Em alguns momentos a neutralidade e o olhar se perdiam. Para quem estava observando, foi bom perceber o quanto o corpo expressa, diz muita coisa, só por estar no espaço, e que comunica pelo deslocamento. Na última rodada, o Lima foi acrescentando os atores, um a um, até que os quatro interagiram juntos no espaço.
Lima cedeu um tempo para que César e Marco apresentassem algumas ideias sobre como contar a história do Capitão. César apresentou um workshop, sobre utilização de sombras, para representar o encontro de Marinho com ele mesmo criança, quando ao encontrar a concha adulto, voltaram as memórias do seu passado. Para isso, eu e Tililim fizemos uma sequência de ações, pedidas por César, e com o tempo determinado por Marco ao piano. Eu fui a sombra dela, e fiquei atrás do pano. Possibilidades de imagens e ambientações através de sombras.
Marco também apresentou um workshop. Ele trazia numa mão um farol/lanterna, e na outra um fio com um saco plástico branco na extremidade, que girava como sendo as gaivotas. Enquanto isso, narrava um texto que fazia menção à volta do Marinho à trupe, tentando fazer uma relação com o retorno do Santiago após seu peixe ser devorado pelos tubarões. Ao final, um barquinho atravessou a diagonal do palco, arrastado por um fio de nylon e iluminado pela sua própria lanterna, numa imagem bonita. Apesar disso, achei a cena – em especial o texto – um pouco confusa.
Para finalizar o trabalho do dia, muito proveitoso, por sinal, fizemos uma roda, e Lima deu de presente ao grupo, uma pequena Iemanjá, muito bonita. E hoje choveu durante boa parte do ensaio, parece que ela trouxe as águas e as boas energias com ela.